Sob a influência do El Niño
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sábado, 17 de outubro de 2015
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Na segunda-feira faz frio. Na quarta, aquele calorão. Já na sexta-feira, as fortes tempestades no final do dia assustam quem acordou reclamando das altas temperaturas logo cedo. O cenário faz parte de quem vive na região Centro-Sul do Brasil neste início de primavera. O responsável por essa sensação de "tempo maluco" é o El Niño, um fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico na região equatorial e que causa consequências em todo o mundo justamente por ocorrer no maior oceano do planeta.
Os meteorologistas avisam que os dias muito quentes seguidos por fortes tempestades podem voltar a ocorrer até o fim do verão, talvez com um pouco menos de intensidade. A ciência de antecipar o que vai ocorrer com o tempo, neste caso, pode ser uma boa aliada para ajudar a decisão de quem está pensando em comprar um ar condicionado ou limpar a piscina mais cedo para se refrescar nos dias do calor. Já para quem planeja passar os próximos feriados prolongados na praia, é bom prestar atenção à previsão: há possibilidade de chuva por vários dias seguidos no litoral.
Na região Sul, as variações climáticas provocadas pelo El Niño podem ser boas para a agricultura, que dificilmente vai padecer de falta de água, avisa o meteorologista Luiz Renato Lazinski, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Os municípios devem se preparar, porém, para a possibilidade de enchentes e temporais mais frequentes, além de mais precipitações de granizo acompanhadas de vento e trovoadas, como já ocorreram em várias regiões do Paraná. "Esses fenômenos costumam ser pontuais e em áreas isoladas, às vezes ocorrem em apenas um bairro da cidade", exemplifica.
Os dados sobre ocorrências de desastres registrados pela Defesa Civil do Paraná indicam que o El Niño já pode estar causando consequências. Em setembro do ano passado, o órgão registrou 89 ocorrências em 75 municípios que afetaram 66.225 pessoas. No mês passado, foram 95 ocorrências em 82 municípios e que afetaram 102.142 pessoas. A grande maioria das intempéries, nos dois anos, foram tempestades com vendaval e precipitação de granizo. Apenas em Foz do Iguaçu, no mês passado, mais de 60 mil pessoas foram afetadas pelas fortes chuvas. Em Ponta Grossa, uma única tempestade prejudicou mais de 3 mil pessoas.
"A Defesa Civil já está avisada que a região Sul terá problemas com enchentes, granizo e destelhamentos. Não dá para dizer que ocorrerá, mas as chances são maiores", analisa, lembrando que enchentes e destalhamentos já ocorreram nos estados da região. "A previsão do tempo ajuda a ficar prevenido contra isso", considera.
Lazinski comenta que o último El Niño, registrado em 2010, foi considerado fraco. O atual pode ser classificado como moderado a forte, mas não supera a intensidade do fenômeno de 1998, o mais severo das últimas décadas. O fenômeno que causa chuva no Sul provocará seca no Norte e no Nordeste. O comportamento,
porém, nada tem a ver com mudanças climáticas. "As temperaturas ficarão mais altas, mas é uma variação natural do clima, que sempre mudou e continuará mudando. As pessoas sempre conviveram com isso."
Alexandre Nascimento, meteorologista do Climatempo, reforça a certeza de que vai fazer muito calor e chover além da média no Paraná, com ventos fortes e tempestades. O mesmo deve ocorrer na região Sudeste, o que é uma boa notícia para as populações que enfrentaram problemas graves de desabastecimento de água no ano passado e início de 2015. "No Nordeste pode faltar energia e seguramente vai faltar água. Já o Sudeste começa a recompor as perdas. Acredito que o ano que vem será melhor, mas a recuperação não ocorre de uma hora para outra, é um processo gradativo", afirma.
Defesa Civil
O capitão Eduardo Gomes Pinheiro, da Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil do Paraná, explica que a previsão do tempo sempre orienta os planos de contingência de desastres elaborados pelos municípios, mas que a ocorrência do El Niño não implica em mudanças práticas. "A Defesa Civil sempre está preparada para o pior", afirma.
O fenômeno registrado nas áreas do Pacífico, apesar de reforçar a perspectiva de que um cenário mais grave pode acontecer, não é motivo para criar pânico. "Pode ser que as chuvas sejam bem distribuídas", diz. Ele adverte, porém, que as pessoas em geral não refletem que "o risco faz parte da vida". "Esquecer que os desastres podem acontecer é o maior risco, pois quando ocorrem as pessoas estão despreparadas", considera.
Pinheiro também defende que a prevenção de desastres deve ser constante e envolver áreas como planejamento urbano, saúde e meio ambiente. Ocupações irregulares, desrespeito às matas ciliares e outras ações humanas, por exemplo, são as verdadeiras causas das enchentes. "É uma questão de ação e reação. Quando quebramos o respeito na relação com a natureza, é maior a possibilidade de vivermos as más consequências", afirma.


