Situação tem reflexos à população
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de janeiro de 2001
Carolina Avansini De Londrina 
Uma pesquisa divulgada por um grupo psicólogas londrinenses no ano passado revela que a população também sofre os reflexos do problema. Segundo elas, a situação interfere na qualidade dos serviços prestados à comunidade, que passa a enfrentar policiais menos preparados para o trato com as pessoas.
Em Londrina, a tentativa de suicídio por parte de um policial militar, no início de janeiro, trouxe de volta a discussão sobre as consequências do estresse no cotidiano da profissão. O marido de Ivanir Alves da Silva Gusmão, cabo do 5º Batalhão da Polícia Militar (BPM), tentou tirar a própria vida no dia 5 de janeiro. Nesse dia, ele pegou a arma para sacrificar um cachorro que estava doente fazia tempo, mas acabou atirando no próprio peito. Agora, está internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Santa Casa, sem previsão de deixar o hospital. Tenho certeza que foi por causa do trabalho, desabafou.
Há 23 anos na coorporação, o cabo é alcoólatra e estava há seis anos sem beber, mas no final do ano passado, rompeu o jejum por causa de problemas enfrentados na profissão.Quando voltou a consumir álcool, disse que só dava para aguentar o baixo salário e as humilhações dos superiores com bebida na cabeça, relatou.
Segundo Ivanir, seu marido vinha sendo pressionado por um tenente a consertar uma viatura que foi danificada em um acidente no qual estava envolvido. Ele era cobrado diariamente, o tenente inclusive ligava para o rádio da viatura e ameaçava prendê-lo. Os policiais são humilhados e trabalham sem condições, mas não podem reclamar por causa da hierarquia, argumentou. Ela acrescentou que o cabo tinha comportamento normal antes de entrar para a PM, mas com o tempo acabou se tornando depressivo e estressado 24 horas por dia.
Márcia Marton é outra esposa de policial militar que resolveu denunciar a situação enfrentada pelo marido, que é soldado da PM há cinco anos. Segundo ela, o esposo começou a ser perseguido quando reclamou diretamente ao comando sobre ter sido humilhado pelos superiores. Ele ficou oito dias preso, em agosto do ano passado. O comando justificou a punição dizendo que não era permitido quebrar a hierarquia, comentou.
Ela também contou que o marido foi impedido de fundar uma associação de cabos e soldados. Por causa disso, foi transferido para a penitenciária, onde ficou por oito meses. Agora, enviaram-no para Guarapuava. Eles dizem que é por necessidade de serviço, mas na verdade, querem impedir qualquer tipo de mobilização, acusou.
Reforçando a situação exposta por Ivanir, ela afirma que o marido sempre foi equilibrado, mas ficou psicologicamente desestruturado quando começou a ser perseguido. O problema, para Márcia, está na filosofia arcaica da corporação, que não se aplica mais aos nossos dias. O PM é um cidadão sem cidadania.


