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Situação econômica: choque de oportunidades


Vitor Struck - Grupo Folha
Vitor Struck - Grupo Folha

Muito antes da pandemia de coronavírus, quem vive da terra por aqui já havia encarado uma catástrofe econômica com a geada de julho de 1975. Com a destruição de boa parte dos pés de café em toda a região norte do Paraná, muitas mudanças foram sentidas a partir das décadas seguintes à de 1970, quando a população do Distrito de Paiquerê chegava a cinco mil habitantes. Este número caiu pela metade no início dos anos 2000 e, desde então, apresentou leve crescimento para quase três mil pessoas.  


Situação econômica: choque de oportunidades
 




Para moradores como o operador de máquinas Luiz Ricardo Barcarolli, 18, cujas atividades em uma fazenda da região foram suspensas e o rendimento mensal "achatado", as últimas semanas têm sido de muita incerteza. Durante a produção desta reportagem, o jovem ainda não sabia se teria o saque do auxílio emergencial aprovado. Mas, em suas palavras, o que parece doer mais na atual conjuntura não é o bolso e tem a ver mais com o lado emocional. “Sim, você já tem que manter uma distância, não pode ficar tão junto. Igual se você for em Londrina, como que você vai chegar e dar um abraço no seu avô, sua avó? Não tem jeito”, lamenta.  



Luiz, Laís e Rosângela Barcarolli: pandemia aumentou sensação de isolamento
Luiz, Laís e Rosângela Barcarolli: pandemia aumentou sensação de isolamento | Gustavo Carneiro/Grupo FOLHA
 

Com as mesmas preocupações vive a autônoma Lucineide Carneiro Caetano, 52, que viu as encomendas de pizzas, tortas e assados caírem com o distanciamento social. A moradora também ficou impedida de vender a sua especialidade, os "geladões" nos sabores morango, açaí, leite ninho e creme de avelã e que a equipe da FOLHA não deixou de provar.   

 

Agora, produz máscaras na máquina de costura e tenta espantar a preocupação com o irmão mais novo, que mora na Inglaterra e, sempre que tem a oportunidade, conta como está sendo viver em um país onde o Covid-19 já fez um número bem maior de vítimas. Nas conversas entre os dois irmãos, que moram em localidades conectadas pela história, a moradora do Distrito é quem respira mais aliviada quando pensa no risco da doença. "Ele não sai de casa lá, diz que aqui nós estamos no céu", conta.   


No campo, em sua propriedade de 12 hectares, o agricultor Vitor Araújo já estava afobado com o “pulgão”, praga natural da vassoura caipira que planta e a própria família prepara para ser vendida a estados como Santa Catarina e Mato Grosso. "Até ano passado a gente não tinha, veio do nada, apareceu e desse jeito nunca tinha visto", lamenta. 

 

Vitor Araújo: preocupação com o "pulgão" é maior do que a da covid-19
Vitor Araújo: preocupação com o "pulgão" é maior do que a da covid-19 | Gustavo Carneiro/Grupo FOLHA
 

Com a produção da vassoura caipira em baixa em várias localidades, o agricultor avalia que a procura ainda é “boa” e que não pretende mudar a cultura. Para se divertir, conta que as boas pescarias e cavalgadas do passado não ainda não foram suspensas. “O futebol dos ‘menino’ ai foi”, diz. 

 

No entanto, a primeira “etapa” de isolamento social mais intenso também trouxe boas notícias a alguns habitantes das localidades visitadas pela reportagem. Com a determinação para o fechamento do comércio, a partir do dia 23 de março, proprietários de mercados passaram a receber alguns clientes que raramente eram vistos. Eram cerca de 30 moradores de Londrina e Cambé que possuem sítios ou casas na região e acabaram consumindo no comércio local, contam os comerciantes.   

  

"Até aumentou o movimento, o povo evitava de ir pra cidade comprar. Veio gente de fora, mas agora já voltou ao normal", avalia Vera Lúcia Araújo Ribeiro, 51, que gerencia o mercado da família há 15 anos no Patrimônio Guairacá.  

Vera Lúcia Araújo Ribeiro: movimento aumentou no Guairacá com o comércio fechado em Londrina
Vera Lúcia Araújo Ribeiro: movimento aumentou no Guairacá com o comércio fechado em Londrina | Gustavo Carneiro/Grupo FOLHA
 

No distrito de Paiquerê, o sensível aumento no movimento do comércio também foi percebido pelo comerciante Roberto Moura, 53, que disse ter sido "severo" com os clientes que insistiam em entrar na loja, no número 426 da avenida, sem máscaras. Questionado se a pandemia teria atrapalhado algum plano importante da família, Moura confessou que sim. Uma visita a Cianorte foi interrompida após o município do Noroeste registrar a primeira morte causada pela Covid-19, e uma viagem de férias que dependeria de encarar o medo que sente ao viajar de avião também. "Ia viajar um pouco, descansar, agora fica para o ano que vem", diz.     


Roberto Moura: firmeza para que os clientes usem máscaras dentro da loja
Roberto Moura: firmeza para que os clientes usem máscaras dentro da loja | Gustavo Carneiro/Grupo FOLHA
 

Na mesma toada, o comerciante de Cruzmaltina há dois meses morando em Irerê, Daniel Ferreira, 59, brinca sobre a pandemia. “Aquela cervejinha que tinha aqui acabou”, diz. E confessa à reportagem que, com o retorno das atividades do comércio, o ritmo no terminal rodoviário do distrito, vizinho ao seu comércio, já está quase como antigamente, o que pode ser perigoso aos passageiros, mesmo com janelas abertas e uso de máscaras e álcool em gel.




No final da tarde, pico de retorno de trabalhadores e trabalhadoras para casa, a reportagem flagrou um ônibus lotado no desembarque em Irerê. No início da manhã, o fluxo inverso de passageiros provoca aos ouvidos um outro barulho que já não é tão agradável quanto o das folhas secas no chão. É o ruído do chassi do veículo lotado quando “varre” o concreto ao partir para um novo de dia trabalho.

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