SITUAÇÃO DE POBREZA - Bolsa Família completa uma década
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sábado, 28 de setembro de 2013
Marian Trigueiros<br> Reportagem Local 
Suzana Aparecida da Silva é moradora do bairro Santa Fé (zona leste), uma das regiões mais carentes de Londrina. Tem apenas 34 anos, mas aparenta muito mais, resultado de uma história de vida que mistura pobreza e todos os agravantes da situação de vulnerabilidade. Há dez anos, recebe o auxílio do Bolsa Família e é somente com ele que sustenta sozinha os quatro filhos. No início eram R$ 30. Hoje, são R$ 350. "Só com o dinheiro da bolsa eu não conseguia cuidar das crianças; sempre precisava da ajuda da assistência social. Agora, consigo comprar comida e algumas coisas para os meus filhos, mas ainda preciso de doações", conta a mulher que não trabalha fora de casa há, pelo menos, oito anos, por ter de cuidar da prole.
A casa de dois cômodos abriga a família e os poucos móveis ganhados. "Não posso comprar geladeira, fogão, televisão; esse tipo de coisa com o dinheiro. É só para pagar as contas e comida mesmo", conta. Apesar da precariedade do local, ela comemora a casa própria feita de material que é onde se sente segura com os filhos. "Morei muitos anos em barraco. Ter essa casinha é muito bom, mas não posso sair daqui se não roubam tudo o que tenho aqui dentro", diz ela, que não sabe precisar sobre a regularidade da residência, que está no nome do ex-marido.
Ao andar por sua vizinhança não é difícil encontrar outras famílias, sobretudo comandadas por mulheres sem companheiros, na mesma circunstância: muitos filhos, sem trabalho, baixa escolaridade e dependentes da bolsa. Algumas jovens repetem a trajetória da mãe e recebem ou aguardam o momento de serem contempladas com o auxílio. Aos 21 anos, Laira Inoue já está no segundo filho e endossa a lista daqueles que esperam receber alguma ajuda em breve. "Vou ter que trabalhar, porque não vou ganhar muito. É difícil conseguir creche para deixar as crianças e conseguir um emprego bom. Mas, o que vier, já ajuda", conta a jovem, com o bebê de pouco mais de um mês no colo.
Prestes a completar dez anos de existência, o programa do governo federal, que prevê a transferência de renda direta à população, beneficiava cerca de 3,6 milhões de brasileiros uma década atrás e, hoje, são 13,8 milhões. No total, o governo repassou cerca de R$ 2,1 bilhões este ano; o programa está presente em todos os 5.570 municípios brasileiros. Em todo o Estado, o número acompanhou o salto crescente. Passou de 46.859 famílias, em 2003, para 423.029 famílias, em 2013. Eram repassados cerca de R$ 3,4 milhões na época. Atualmente, são mais de 56,1 milhões somente no Paraná.
Levantamento que divide o número de habitantes do município pela quantidade de bolsas cadastradas revela que a dependência ao programa é grande, principalmente no Nordeste. A cidade mais dependente é Maceió, capital de Alagoas. Existe um benefício a cada 10,8 habitantes. Em Londrina, atualmente, são mais de 14 mil bolsas cadastradas. Isso resulta em um benefício a cada 36,04 habitantes. No Paraná, a cidade menos dependente é Maripá, que recebe um benefício a cada 85,8 habitantes.
Fatores
Para Silvana Mariano, doutora em Sociologia e docente do departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL), os índices de dependência destacam dois fatores: taxa de população em situação de pobreza e gestão do cadastro único. "O menor índice de benefícios não significa, necessariamente, que o município não tem pobreza. Temos de lembrar que o cadastro é feito por iniciativa da própria população que busca o cadastro. E esse fator pode excluir pessoas que possuam os critérios de adesão", explica.
Ainda assim, ela acredita que o programa tenha trazido "alguma dignidade" à população de mais pobreza e vulnerabilidade. "O valor repassado é muito baixo, mas proporciona o acesso a algum direito previsto em lei. Dignidade, porém, é diferente de autonomia. Apesar de não ser considerado assistencialismo, chegamos a um ponto em que presenciamos a ausência de ruptura ou baixa independência ao auxílio. Não são raros os casos em que as mães recebiam a bolsa, continuam recebendo e, dez anos depois, ou seja, hoje, as filhas estão repetindo a mesma situação. Precisamos quebrar esse ciclo de gerações."


