Sítios arqueológicos estão ameaçados
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sábado, 03 de novembro de 2001
Katia Michelle<br>De Curitiba 
A falta de interesse e investimento dos órgãos públicos está ameaçando um importante patrimônio histórico do Estado: os sítios arqueológicos. No Paraná, existem pelo menos 2 mil deles identificados. São locais que abrigam em seus subsolos vestígios que podem esclarecer grande parte da história da humanidade e das civilizações antigas. Sejam ossadas, cacos de cerâmica ou objetos dificilmente identificados à primeira vista, os materiais ajudam a reconstruir o passado da sociedade. No entanto, as iniciativas para o reconhecimento desses sítios e resgate do material que eles apresentam são escassas. A maioria, de iniciativa privada.
O Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas da Universidade Federal do Paraná (Cepa/UFPR) lidera os estudos na área no Estado e também em outras regiões, mas sempre trabalhando respaldado por recursos privados. Atualmente, o centro realiza duas pesquisas financiadas pela empresa de energia Furnas Centrais Elétricas S/A e pela Concessionária Rodonorte. A iniciativa só acontece porque a preservação dos sítios arqueológicos antes de grandes empreendimentos são obrigatórios, garantidos pela Lei 3.924, de 1961.
A legislação se tornou obsoleta porque não garante a pesquisa para identificar os locais, mas uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) surgiu para complementar a lei. ''Ficava difícil caracterizar uma área como possuidora de sítios, se não havia uma pesquisa anterior para reconhecê-los'', explica o diretor do Cepa, Igor Chmyz. ''Tivemos áreas imensas destruídas sem que houvesse uma pesquisa anterior.''
Para suprir essa carência, o Conama criou o Decreto 001/86, que estabelece a obrigatoriedade das pesquisas para identificação dos sítios antes da realização das grandes obras. Assim, um grande empreendimento só pode ser iniciado quando esgotadas as possibilidades de materiais arqueológicos serem descobertos. A medida vem ao encontro do interesse dos pesquisadores, mas ainda não atende às expectativas. ''O tempo para a identificação dos sítios e resgate do material ainda é pequeno'', salienta.
A pesquisa está inserida dentro do Estudo de Impacto Ambiental (EIA/Rima), exigido pelos órgãos governamentais e garante que os vestígios da história paranaense não se percam, destruídos pela força da tecnologia. A importância desse trabalho, conforme ressalta o diretor do Cepa, é inestimável. ''É o resgate da nossa história e o referecial que temos para o nosso futuro'', enfatiza.
O material encontrado nos sítios arqueológicos pesquisados pelo Cepa é encaminhado para UFPR, que se torna fiel depositária das peças. Começa então, uma nova etapa das pesquisas: a reconstituição do passado. Os pesquisadores já encontraram, por exemplo, objetos que remontam a 9 mil anos antes da descoberta do Brasil. Objetos cerâmicos que pertenceram a tradições culturais que viveram no Paraná durante a Era Cristã, como Tupiguarani, Itararé e Casa de Pedra, são algumas das peças descobertas recentemente no Interior do Estado. Depois de identificadas, esses objetos podem ter dois destinos. Permanecem no acervo da UFPR ou são encaminhadas para o local de origem, se houver possibilidade da abertura de um museu com os objetos de resgate arqueológico.
Atualmente, as pesquisas realizadas pelo Cepa estão sendo feitas em dois locais específicos: na linha de transmissão de Furnas, que compreende uma área de 272 quilômetros entre o Paraná e São Paulo e também no trecho entre Mauá da Serra (54 quilômetros ao sul de Apucarana) e Imbaúa (104 quilômetros ao norte de Ponta Grossa).


