O servente de pedreiro José Damião, 45 anos, de Londrina, caminha com passos firmes pelas ruas do Jardim Nossa Senhora da Paz (zona oeste). Ele anda rápido porque tem 40 minutos para chegar no Caic do Jardim Leonor a tempo de assistir a primeira aula, que começa às 19 horas.
Dinheiro para pagar o ônibus Damião não tem, mas entusiasmo não lhe falta. ‘‘Terminei o supletivo ano passado e agora quero entrar na universidade’’, diz. Sergipano, Damião relata que saiu da terra natal aos 20 anos. ‘‘Queria conhecer o Brasil e fui turista de guerra’’. Turista de guerra, segundo ele, é o trabalhador que corre o País atrás de emprego. ‘‘Conheci cinco estados e parei em Londrina’’.
Especialista em fio de prumo e muro de arrimo, ele revela que se identifica mais com as disciplinas da área de exatas. ‘‘Gosto de geometria’’, confessa. Apesar disso, vai tentar vestibular para um curso na área das ciências humanas. ‘‘Vou estudar direito’’. Ele comenta que tem dificuldade em português, mas se expressa com clareza e tem bom vocabulário. ‘‘Acho que sou bom aluno’’.
Casado e pai de quatro filhos, o servente acorda todo dia às 5 horas da manhã e vai para o canteiro de obras, onde está ajudando a erguer mais um edifício na cidade. Ele ganha R$ 1,15 por hora, o que lhe garante um salário médio de R$ 280,00 por mês. O servente de pedreiro, que constrói edifícios de alto padrão, mora em uma dependência financiada.
Persistente, Damião também estuda no sábado, das 14 às 18 horas. No domingo, o operário vai nas aulas de reforço de inglês. Tanta determinação tem razão de ser. ‘‘Quando eu chegar na entrada da Universidade Estadual de Londrina quero que a porta esteja aberta’’.
Os alunos do curso pré-vestibular voluntário acreditam que conhecem o verdadeiro significado da solidariedade. ‘‘Os professores cumprem as promessas feitas pelos políticos’’, diz Eva Sandra Inácio da Silva, que vai tentar uma vaga no curso de pedagogia. Vítor Hugo Mantovani, 18 anos, também ressalta o esforço dos professores e dos colegas. ‘‘Procuramos ser exemplos uns para os outros’’, comenta.
A determinação em entrar para a faculdade leva muitos dos alunos a ir para o cursinho à pé. Esse é o caso de Lucineide Peixoto, 19 anos, e mais duas colegas. Vanessa Kelly Pereira, 18 anos, acha que todo o sacrifício que eles fazem vale a pena. Para ela, falta reconhecimento aos professores. ‘‘A falta de salas adequadas e passes demonstra a pouca vontade do poder público’’. (M.B.)

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