Sequelas profundas e duradouras
O estupro é um crime violento com implicações médicas, psicológicas, legais e sociais. No capítulo 13 do Manual de Emergências Psiquiátricas, disponível na biblioteca virtual do site www.bibliomed.com.br, os autores Patricia Mian e Paul Summergrad o definem como um ataque agressivo, com expressão sexual, que desencadeia reações emocionais complexas por parte da vítima, frequentemente mais significativas do que o dano físico.
Ainda de acordo com o manual, durante a última década as perspectivas sociais e psicológicas do estupro evoluíram significativamente. O estupro passou a ser encarado como crime de violência que pode ou não incluir excitação sexual por parte do agressor. Na maioria dos casos a motivação do estuprador parece ser a degradação e a dominação da vítima, em vez da obtenção de relações sexuais não acessíveis de outra forma. Esses achados ajudam a explicar os sentimentos da vítima e as sequelas psicológicas que podem ocorrer, diz a publicação.
Na prática, as graves sequelas são presenciadas no dia a dia do Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CAM), da Secretaria de Políticas para as Mulheres de Londrina. As vítimas chegam até nós extremamente abaladas, com sentimentos de injustiça e impunidade. E, além do abalo emocional, ainda têm que lidar com os efeitos colaterais dos medicamentos que são administrados, explica a psicóloga do órgão, Mirtes Menezes.
A lentidão dos processos criminais também provoca muito sofrimento, além das incertezas de punição do agressor. Mesmo quando o criminoso é identificado pelo nome e endereço, a morosidade é grande, e as vítimas passam a viver a expectativa de que os exames corroborem seus depoimentos, como se eles, por si, nada valessem. Também é comum que a mulher seja culpabilizada, o que dificulta o atendimento, porque com isso elas ficam descrentes de que conseguirão ser ajudadas.
A psicóloga explica ainda que tristeza, angústia, pesadelos recorrentes, sono agitado, sentimentos de morte, de estar deslocada e medo de que a situação volte a se repetir normalmente acompanham por muito tempo a mulher. O estupro pode ser rápido, mas o trauma que fica não. É algo que deixa muitas marcas. A vítima tem que se inserir de novo à vida de forma lenta, afirma Mirtes, lembrando que as sessões de terapia são, normalmente, a primeira situação de escuta em que as vítimas não são culpabilizadas pelo ocorrido. Pode levar anos para que a mulher sinta-se viva novamente.
De acordo com Mirtes, a recuperação da vítima de estupro vai depender muito do apoio familiar, do acolhimento no meio em que vive, de sua estrutura psíquica, do envolvimento social que possui e se conta ou não com uma rede de apoio. Mas via de regra, explica a psicóloga do CAM, este tipo de crime deixa sequelas emocionais por muito tempo e pode comprometer a funcionalidade da pessoa por anos a fio. Muitas doenças físicas pode surgir, como resultado do trauma vivido, revela.
O CAM é um dos braços da rede de atendimento às vítimas de violência sexual em Londrina, que tem por referência o Programa Rosa Viva. Funcionando dentro da Maternidade Municipal, ele atende uma média de 30 casos por ano. Com exceção de casos extremos, em que as vítimas são encaminhadas para o Hospital Universitário (HU), o Rosa Viva é a porta de entrada deste tipo de atendimento. A coordenadora de enfermagem da Maternidade e uma das responsáveis pelo Rosa Viva, Ana Olímpia Velloso Marcondes Dornellas, explica que o primeiro atendimento inclui teste para HIV, sífilis e hepatite, além de administração de coquetel para prevenção de contaminação pelo HIV (antes mesmo do resultado dos exames), da pílula do dia seguinte e levantamento vacinal.
A partir deste primeiro atendimento a vítima é encaminhada ao Instituto Médico Legal (IML), para coleta de material, e posteriormente ao CAM. Todas as etapas de atendimento incluem pelo menos seis meses de acompanhamento. Em função das mudanças previstas no programa Mulher, Viver Sem Violência, o município se prepara, atualmente, para ampliar a rede de atendimento e criar novas portas de entrada dos casos envolvendo abuso sexual. (S.L.)





