Sentar-se, um ato politicamente correto
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de julho de 1997
Iara Lessa Londrina 
Sentar-se com conforto foi uma conquista do homem. Muito se experimentou até que as nádegas pudessem repousar em paz. Embora na antiguidade o conforto no sentar tenha sido maior que na Idade Média, foi somente no final do século 18 que as técnicas de manufatura de móveis começaram a surpreender. A produção desses móveis levava em consideração alguns detalhes.
Para aprimorar a técnica do conforto descobriu-se que uma cadeira precisava de alguns requisitos. Primeiro, deveria haver estofamento suficiente para evitar a pressão dos ossos. O anteparo da frente da cadeira deveria ficar abaixo da almofada para não ferir as coxas. Para se sentar em uma posição mais ou menos ereta era preciso um apoio para as costas, mas ele não deveria nem totalmente vertical, já que nossa coluna também não é, nem possuir uma grande inclinação, senão ficaria desconfortável ou então a pessoa que estivesse sentada acabaria escorregando.
Toda essa preocupação com a ergonomia parece óbvia hoje mas demorou séculos e séculos para que esse conceito fosse, primeiramente criado e, depois incorporado ao nosso dia-a-dia. Atualmente, na era do sedentarismo, o conforto é o requisito básico para qualquer móvel. Tanto que a tendência para o próximo século, que promete algumas revoluções, não ignora isso em momento algum.
As novas tendências não dispensam a tecnologia. O Museu Virtual de Móveis, (http://www.aol.ucla~maxi.baker/RDH/html/) criado por Nornam S. Baker, professor de Design da Universidade da Califórnia (UCLA) e antigo curador do Museu Shelburne, criou um site (repleto de fenomenais links) onde toda a história da casa e seus móveis e acessórios é contada. Baker conseguiu reunir, além de acervos virtuais de diversos museus (Metropolitan, Arte Moderna de Nova York, entre tantos), tendências anunciadas por arquitetos de quase todo o mundo (o Brasil foi deixado de lado pelo professor, mas até mesmo profissionais da fria Islândia são lembrados).
Segundo o site de Baker (que cobra US$ 10 a entrada) as cadeiras do século 21 obedecerão a três requisitos básicos. Primeiro serão ecologicamente corretas quanto aos materiais. Pela previsão virtual nada de derrubar árvores ou utilizar couro, materiais condenados ao ostracismo. A reciclagem é a ordem do momento. Matéria plástica também estará entre os materiais mais usados.
Como parece que a ficção científica invadiu as fábricas com seus robôs fabulosos, as peças serão cada vez mais baratas. A produção em série é marca que persiste nestes próximos anos
Mas talvez a principal característica dessa nova fase moveleira será a plenitude no conceito de móveis multiuso. Quanto menores os espaços, mais engenhosos deverão ser os móveis. Devem, além de dobráveis, servir a outras tarefas (cadeiras que viram mesas, armários que viram camas, etc...), aproximando-se novamente do conceito medieval do mobiliário, que, há cinco séculos, de forma muito acidental, já se prestava a esse papel.


