'Se não tivesse me mudado, não estaria aqui hoje'
De acordo com a médica Luciane Deboni, coordenadora de Transplantes da Fundação Pró-Rim e membro da Câmara Técnica de Transplantes do Ministério da Saúde, Santa Catarina conta com filas de espera menores que outros estados e desenvolveu um sistema eficiente de captação de órgãos. "Contamos com um dos melhores índices de captação de órgãos por milhão de população. Isto torna o estado muito atraente para pacientes de fora", admite a médica. Ela argumenta que em São Paulo o tempo médio de espera por um transplante é de cinco anos (podendo chegar a 10) e a lista é de 10 mil pessoas. Em Santa Catarina a lista é de 400 pessoas e o tempo de espera, embora dependa muito das condições do receptor, pode levar dias.
Luciane ressalta, porém, que o Paraná tem melhorado muito o seu sistema nos últimos anos. "O processo migratório já foi maior e justificável", constata. Prova de que o estado vem conseguindo reverter o preocupante quadro de anos atrás é que as instituições locais têm se tornado referência e atraído pacientes de fora.
É o caso do agente de segurança Sérgio Ricardo Paciullo, de Mongaguá, no litoral paulista. Depois de conviver durante anos com insuficiência hepática, no final de 2011 ele teve um quadro agudo de ascite (excesso de líquido no espaço entre os tecidos que revestem o abdome e os órgãos abdominais), resultado da doença causada pelo vírus da hepatite C. Dois meses depois, no Carnaval do ano seguinte, suas perspectivas de vida não eram boas.
"Fui para o primeiro lugar da fila de transplante de fígado, porque meu caso era muito grave. Mas não surgia um órgão compatível e, enquanto isso, houve uma pequena melhora no meu quadro e eu fui sendo colocado para o final da fila novamente, apesar da urgência do caso", conta Paciullo, que na época era atendido em São Paulo. Segundo o agente, sua situação era tão preocupante que o próprio médico responsável por seu tratamento sugeriu que ele procurasse os serviços oferecidos no Paraná ou Minas Gerais, que seriam mais ágeis.
Sérgio procurou, então, o Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba. Doze dias depois, exatamente em 21 de março de 2012, ele era submetido ao transplante. "Por ironia, o órgão que recebi veio de Itapecerica da Serra, em São Paulo", revela. Recuperado e se preparando para assumir uma vida com menos restrições (na qual está incluída a rotina de atividade física), Paciullo relembra os dias difíceis enfrentados após o transplante. Vítima de grave infecção causada pela superbactéria KPC, ele passou 60 dias na UTI, dos quais 17 em coma induzido, com paradas cardíacas e outras complicações. "Tudo falhou no meu organismo, só o fígado que não. Os médicos acham que fui salvo pela minha estrutura física."
O agente de segurança acredita que a decisão de vir para o Paraná salvou sua vida, e afirma que hoje é outra pessoa. "Se não tivesse me mudado, não estaria aqui hoje dando esta entrevista." Porém, além das dificuldades impostas pela doença, Paciullo, a mulher e os dois filhos sofreram e ainda sofrem com o frio da região. Um detalhe, para quem tem vivido desafios bem maiores. E assim, enquanto a família retoma a vida em terras paranaenses, a volta para o litoral paulista vai ficando cada vez mais distante. "Aqui consegui até comprar casa própria", comemora. (S.L.)





