"Foram mais de seis anos de médico em médico na busca por um tratamento para meu irmão. Durante esse tempo, várias crises e surtos graves aconteceram. Em um deles, eu tive de partir para cima e tirar a faca de sua mão, pois dizia que mataria nossos pais. Quando se tem alguém com doença psiquiátrica na família, todos ficam doentes junto". O desabafo emocionado é de um comerciante de Londrina que há 17 anos convive com a doença do irmão, diagnosticado com esquizofrenia.
Milhares de famílias no Brasil vivem o mesmo drama de não saberem como lidar com os surtos e crises de algum ente portador de doença psiquiátrica grave e, mais do que nunca, em decorrência do abuso de álcool e drogas. Há uma semana, um homem de 30 anos, supostamente em surto paranoide por abuso de drogas, matou a própria mãe e três vizinhas em Londrina, após uma briga com a esposa. Ele havia apresentado indícios de instabilidade psíquica horas antes do crime e chegou a ser atendido em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). A família alega que teria pedido a internação do rapaz, mas ele foi liberado em seguida, pois estaria calmo e tranquilo na hora do atendimento.
A postura do Ministério da Saúde (MS), embasada pela lei Antimanicomial, de 2001, que reformulou o sistema psiquiátrico – sobretudo com a eliminação da prática de internação do doente como medida primária - mais do que nunca dá sinais de que o modelo necessita de reestruturação. Isso porque o sistema vigente prevê a substituição do antigo modelo pela criação de uma rede de serviços de base comunitária, formada principalmente pelos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), em detrimento aos hospitais psiquiátricos no Brasil.
Os Caps, no entanto, dão sinais de que não estão conseguindo suprir toda a demanda existente nas cidades. Segundo o médico psiquiatra Sérgio Tamai, representante da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), os diagnósticos em psiquiatria geralmente são crônicos, ou seja, há apenas controle e não cura. "O número de atendimentos ambulatoriais, portanto, será cada vez maior ano a ano. Os centros já dão sinais de que não conseguem atender a todos."
Sem acompanhamento adequado, seja por falta de acesso ou desconhecimento, psicóticos crônicos ficam vulneráveis a surtos com mais frequência, e acabam sendo atendidos por profissionais plantonistas em hospitais. "É raro ter um psiquiatra de plantão em um pronto-socorro de hospital convencional. Um clínico geral não tem condições de avaliar integralmente o paciente e as especificidades do seu estado. Se ele não tiver nenhum comprometimento físico, será liberado na sequência", pontua Tamai.
Para ele, o MS deveria abandonar as questões ideológicas e ser mais pragmático com relação às doenças mentais. "Se existe hospital ortopédico, oncológico, cardiológico, por que não psiquiátrico?", indaga, complementando que os hospitais convencionais não teriam estrutura adequada para esses pacientes. "Esses indivíduos, em geral, não têm um problema motor. Por isso, é comum que fiquem andando pelos corredores. Além disso, não há como ter uma previsão de quanto tempo ficarão internados."
A postura do governo federal, segundo Tamai, diminuiu bruscamente os investimentos em recursos humanos nessa área e agravou a situação. "A quantidade de residência médica no Brasil é baixíssima. Psiquiatria e pediatria estão entre os principais deficits na saúde." Na Universidade Estadual de Londrina (UEL), por exemplo, há apenas duas vagas para residência médica em psiquiatria. Para minimizar o problema, o psiquiatra sugere a criação de programas de capacitação maciça entre os clínicos gerais e a implantação de uma política efetiva para reverter o quadro.

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