De um lado, a crise na saúde pública que só piora, com unidades de terapia intensiva (UTIs) lotadas, gestores de hospitais reclamando dos valores pagos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e várias instituições filantrópicas fechando as portas. De outro, um número cada vez maior de pessoas aderindo a planos de saúde na tentativa de conseguir assistência médica de melhor qualidade, enquanto entidades representativas dos médicos organizam protesto nacional (a ser realizado no próximo dia 25) para reinvindicar melhorias às operadoras. O ônus, mais uma vez, sobra para a população, que se vê impotente em um dos momentos de maior fragilidade, que é o da doença.
Atualmente, nem quando há disposição e condições financeiras de pagar por atendimento particular pode-se contar com a garantia de que não haverá longa espera nos hospitais, tamanha a demanda. De acordo com dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), em setembro do ano passado o País tinha 48,7 milhões de beneficiários de planos de assistência médica, o que representa um crescimento de 2,92% em um ano – o maior desde dezembro de 2011.
Na rede pública, a espera por uma consulta com especialista pode levar meses a fio. Dados do SUS indicam que nos últimos anos os gastos do sistema na cidade ficaram aquém da demanda por procedimentos de média e alta complexidade ambulatoriais e hospitalares. Em 2009, o SUS pagou quase R$ 137 milhões em atendimentos desse tipo. Em 2012, a despesa ficou em aproximadamente R$ 156,4 milhões, o que representa que em três anos o gasto anual variou 14,16%.
Os procedimentos ambulatoriais, no mesmo período, aumentaram 14,72% em Londrina, ao passar de 13,3 milhões de atendimentos em 2009 para 15,3 milhões três anos depois. Já os procedimentos hospitalares tiveram um crescimento de demanda de 18,17% – foram pouco mais de 43 mil em 2009 e 50,8 mil em 2012.
O secretário municipal de Saúde de Londrina e gestor local do SUS, Francisco Eugênio de Souza, aponta que o sistema tem uma grande dívida com os prestadores de serviços na cidade. ‘‘Os hospitais públicos e filantrópicos atendem mais do que aquilo pelo que efetivamente recebem’’, descreve.
A solução, segundo Souza, seria o reajuste do teto dos repasses que vêm de Brasília. ‘‘Logo nos primeiros 10 dias de gestão fizemos esse pedido. Com R$ 1,3 milhão a R$ 1,5 milhão a mais por mês, acredito que seria possível resolver a situação e poderíamos ter até alguma sobra, em torno de R$ 200 mil, para contratar mais serviços’’, diz o gestor. Entretanto, de acordo com Souza, ainda não houve resposta à solicitação.

Problema complexo
O presidente da Federação das Santas Casas de Misericórdia e Hospitais Beneficentes do Paraná (Femipa), Luiz Soares Koury, aponta várias causas para o estrangulamento da saúde. A primeira delas, segundo ele, está nos custos do serviço que, em qualquer país do mundo, sobem mais do que a inflação oficial. ‘‘O maior beneficiado é a indústria de materiais, equipamentos e medicamentos, que faz o seu preço e só entrega os produtos se o mesmo for respeitado. Já os serviços de saúde não têm como não entregar atendimento’’,
argumenta.
Outro ponto, segundo Koury, refere-se às novas tecnologias da área médica, que são agregadas às antigas, em vez de substituí-las, encarecendo os custos. Em relação aos planos de saúde, o médico defende que os valores pagos pelos clientes não cobrem tudo o que eles esperam receber. ‘‘Embora os contratos sejam respeitados pelas operadoras em todas as suas cláusulas, muitos beneficiários conseguem na justiça o direito a determinado serviço, gerando uma sinistralidade que chega a ultrapassar os 90%, quando o ideal é que não passe de 80%. Isso complica muito a situação dos planos, refletindo, por exemplo, no achatamento dos honorários médicos.’’
Para o presidente da Femipa, a situação toda na área de saúde é muito complexa e não será resolvida apenas com protestos e passeatas por parte dos próprios profissionais. ‘‘Toda a população precisa se unir para reivindicar melhorias na saúde. O governo federal arrecada cada vez mais em impostos, mas não devolve na forma de serviços de qualidade. Há uma total falta de retorno’’, afirma. Koury lembra que já foram coletadas 1,1 milhão de assinaturas no País com o objetivo de constituir uma emenda de iniciativa popular que deve resultar em um projeto de lei a ser apresentado no Congresso Nacional que obriga a União a aplicar pelo menos 10% de suas receitas brutas em saúde. É preciso
1,5 milhão de assinaturas.

Leia a reportagem completa em conteúdo exclusivo para assinantes da FOLHA.

- Falta estrutura, sobra indignação

- Uma demanda que só cresce

mockup