RUPTURA NACIONAL - População dos bairros está descrente
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sábado, 19 de março de 2016
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Falta de esperança, descrença e um pouco de indignação. Esses foram os sentimentos relatados por moradores de bairros distantes do centro de Londrina em relação à situação política atual. As pessoas ouvidas pela reportagem contaram que sentem diariamente as consequências da crise econômica e política, seja no preço da comida ou na falta de serviços básicos. Não acreditam, porém, que a realidade dos mais pobres possa mudar a curto prazo ou apenas com manifestações de indignação.
"Estou acompanhando as notícias pela TV. É uma baixaria", comenta a faxineira Nilza Cardoso de Sá, moradora do União da Vitória 2 (zona sul), enquanto esperava iniciar a reunião quinzenal dos beneficiários do programa Bolsa Família. Adepta das manifestações que pedem o impeachment da presidente Dilma Rousseff, ela acusa os governantes de não prestarem atenção no sofrimento dos menos favorecidos e defende, inclusive, um aumento no valor do benefício que recebe mensalmente. "O desemprego está uma calamidade e o dinheiro não dá para nada", reclama, destacando que a solução é deixar de votar. "Não compensa perder tempo, todos os políticos são iguais", acredita.
No mesmo bairro, a empregada doméstica Adriana Cristina Borges discorda da opinião da vizinha e afirma que a presidente tem que continuar até o fim do mandato. "O problema não é a Dilma, são todos os governos", diz ela, complementando que "aqueles que nascem pobres não devem se envolver com política, pois são os ricos que tomam as decisões".
Na zona leste, o aposentado Claudinei Sanches, morador do conjunto Pindorama, não vê distinção entre os governantes que já estiveram no poder no Brasil. "Se a cambada de políticos quisesse melhorar o País, eles deveriam se unir para conseguir, ao invés de alimentar picuinhas", critica. Sanches conta que está acompanhando as notícias pela televisão e se preocupa porque as pessoas se manifestam contra o governo, mas não estão pensando em quem vai entrar no lugar. "A pior parte da história é o que vem depois", lamenta.
No bairro Vista Bela, zona norte, a dona de casa Márcia Kelly Ribeiro afirma estar indignada com a corrupção. "O governo está roubando há muito tempo, de vez em quando fazem um projeto para a população mais pobre, só que não melhoram a vida de ninguém", acusa. Ela, que achou absurdo o convite ao ex-presidente Lula para ser ministro, espera que esta crise política termine com menos impunidade. "Não sei se a Dilma deve ficar ou sair, mas acho que todos os envolvidos nos escândalos têm que pagar."
No mesmo bairro, o aposentado José Paulo Machado afirma que o problema maior do Brasil é que "os políticos não querem largar o osso". "Quem está lá não quer sair, mas quem está fora quer entrar", resume, acrescentando que não tem opinião sobre o impeachment. "Os políticos são todos iguais."
O comerciante Marcos Antônio Ferreira tem um pequeno mercado no jardim Maracanã, zona oeste, e tem assistido nos últimos meses o sofrimento da população que está com dificuldades até mesmo para comprar comida. "Não estou tendo lucro com a venda de leite porque sei que se aumentar o preço, quem precisa vai deixar de comprar", lamenta. Como trabalha o dia inteiro com a esposa no pequeno comércio, ele só acompanha as notícias pelo rádio e, como boa parte dos entrevistados, também se mostra descrente em relação às mudanças na política.
"Se eu pudesse rasgava o título e não votava mais", afirma Ferreira, para quem o ex-presidente Lula é "hipócrita". "Ele dizia que era pobre como nós, mas está rico às custas do povo", acusa. No dia a dia, o que incomoda mesmo o comerciante é a falta de atendimento à população em serviços básicos como educação e saúde. "O posto de saúde está rachado por causa das chuvas e o povo está sendo atendido na igreja. Isso é o que mais preocupa."


