Sueli (nome fictício), 67 anos, tem um filho cumprindo pena por tráfico na Penitenciária Estadual de Londrina (PEL 2), desde novembro do ano passado. O rapaz foi preso por tráfico no Rio Grande do Norte e a mãe se empenhou em conseguir sua transferência para a cidade.
O que ela não sabia é que ali, para visitá-lo, teria que submeter-se a uma das experiências mais constrangedoras de sua vida. "Eles colocam todas as mulheres, novas e velhas, todas juntas, em uma sala e mandam que a gente fique nua. Aí colocam um espelho, mandam que a gente abra as pernas e se agache em cima, seis vezes de frente e seis vezes de costas. Sei que isso é necessário porque tem muita gente mal intencionada, mas é terrível, principalmente para as mais velhas. Foi demais para mim, resolvi que enquanto meu filho estiver lá eu não vou mais visitá-lo", revelou.
Na Penitenciária Estadual de Cascavel (PEC), palco da mais sangrenta rebelião no Estado nos últimos anos, ocorrida há uma semana, a situação é igualmente difícil para as mães e mulheres de presos. "No sábado passado, antes da rebelião, tinha uma senhora de 80 anos na fila para a revista. Ela tinha um atestado médico comprovando que ela tem problema na coluna e não poderia fazer o agachamento. Mas não adiantou, ela teve que fazer assim mesmo", contou Ana Paula Teleginski, 19 anos, filha de um empresário de Cascavel detido por suposta associação com o tráfico.
Todos os sábados a jovem visita o pai, em companhia da mãe, e revela que "tudo é torturante". Entre os principais problemas citados por ela estão as falhas nas entregas de remédios, roupas e alimentos; a falta de qualidade da comida; o tempo reduzido das visitas e o tratamento recebido dos agentes. "Meu pai toma remédio controlado. A gente pega a receita com o médico, compra e leva lá para ele. Mas não entregam o que a gente leva. Eles dão um outro remédio, que faz a pressão dele subir", queixa-se a jovem.
Segundo ela, a visita que deveria começar às 13 horas sofre constantes atrasos. "A gente chega lá cedo, mas fica na fila até umas 13h30, daí desce para a vistoria das sacolas, depois a gente vai para a revista íntima. Quando conseguimos chegar no pátio já é perto de 15 horas. Quando dá 16h30 eles já encerram a visita, que teria que terminar só às 17 horas. Quer dizer, recolhem a gente tarde e dispensam mais cedo." A exemplo de outras mulheres entrevistadas pela FOLHA, a jovem usa o termo "constrangimento" para definir o que ela e a mãe sentem no momento da revista. "Cada semana são agentes diferentes que fazem. A gente só se submete pela saudade e pela vontade de ver o meu pai. A gente nunca imaginou que um dia passaríamos por tudo isso", afirma.
Para Arlete Dames, 40 anos, a situação na PEC se agravou com a chegada de presos de Foz do Iguaçu, que ela acredita terem ligação com uma facção criminosa. "Foi aí que começou tudo isso. Antes era mais tranquilo. Se ficasse só quem é de Cascavel não teria problema. Nunca teve esse tipo de coisa por aqui", diz, referindo-se às mortes e à violência demonstrada pelos líderes da rebelião. Segundo ela, entre as principais reclamações do filho de 22 anos, preso por homicídio, estão a qualidade da comida e o frio que passa dentro da prisão. "Ele tem que pagar pelo que fez, mas não é justo ser maltratado", argumenta a mãe.
À lista de dificuldades, o assessor da Pastoral Carcerária de Londrina, padre Edivan Pedro dos Santos, acrescenta o preconceito enfrentado pelas famílias, muitas vezes dentro dos próprios presídios. "Na maioria das vezes as famílias são boas. Se têm problemas com a Justiça, quem tem o papel de julgar é o juiz. Aos agentes cabem apenas fazer o tratamento penal acontecer." (S.L.)

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