RETROCESSO - Na periferia, frustração e impotência
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sábado, 25 de junho de 2016
Carolina Avansini<br> Reportagem Local 
A ameaça de empobrecimento de parcela da população da América Latina destacada pelo relatório regional do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) já começa a se tornar realidade nos bairros periféricos de Londrina. No conjunto habitacional Jerônimo Nogueira (Zona Norte), conhecido como "Vista Belinha" - por reproduzir em menor escala todos os problemas de falta de acesso a creches, escolas, atendimento em saúde e mobilidade urbana enfrentados pelo maior conjunto habitacional de Londrina, o Vista Bela -, muitas famílias já estão convivendo com a falta de recursos financeiros provocada pelo desemprego e pela falta de acesso a mecanismos de cuidados e proteção social.
O produtor cultural Marcelo da Silva, conhecido como Banana Flow nos projetos de inclusão através do hip hop e do skate que realiza em bairros pobres de Londrina, é um observador e também uma vítima desta realidade. Há quase dez anos, ele e a esposa Maria Tereza Dias viviam com uma renda de 2,5 salários mínimos que permitia, entre outros confortos, manter o filho mais velho, Isakue, de 9 anos, em uma escola particular enquanto os dois trabalhavam.
Quase uma década depois, a família aumentou junto com as dificuldades. Nasceram Emanoel, de 6, e os gêmeos Davi e Isabela, de 3. A mãe decidiu ficar em casa com os caçulas até completarem um ano, mas só foi conseguir creche para poder voltar ao mercado de trabalho há dois meses. Com a crise, porém, procura em vão uma oportunidade de recolocação como atendente no comércio. "Antes tinha emprego, mas não tinha creche. Agora que consegui a creche não tem mais emprego", lamenta. Marcelo, por sua vez, perdeu o emprego fixo e vive dos projetos e bicos eventuais. Com isso, a família teve que readequar o orçamento para sobreviver com uma renda de aproximadamente R$ 1 mil.
"A crise sempre afeta a classe mais pobre em grande escala", afirma Marcelo, que há poucos anos assistiu a vizinhança ascender economicamente graças à ampla oferta de empregos e hoje percebe o movimento contrário. "Muita gente saiu do aluguel, comprou carro financiado, experimentou melhora na qualidade de vida, mas agora sofre com a falta de dinheiro e programas sociais", lamenta.
Uma das principais reclamações da comunidade é a dificuldade para receber o leite que antes era distribuído pelo governo com facilidade. "Aumentaram as exigências e só dão para crianças até 3 anos", relata Maria Tereza, que chegou a receber 60 litros por mês e agora tem que pagar R$ 40 por um pacote com 12 litros. "A gente economizava o leite e conseguia comprar mais frutas, iogurte e 'mistura'", diz ela, que acompanhou a reportagem a um supermercado e apontou a lista de produtos que saíram do carrinho. Pipoca, amaciante de roupas, maionese, azeitona, guloseimas eventuais para as crianças e a carne de boi estão fora do orçamento. Produtos básicos como arroz, feijão, macarrão, leite, frango ou linguiça e os produtos de limpeza essenciais são muitas vezes substituídos por marcas mais baratas.
Roupas e calçados para os filhos são outros itens difíceis de adquirir, além, é claro, do lazer. "Nossos filhos se acostumaram com um padrão melhor de vida e agora tivemos que reduzir. A gente inventa brincadeiras, piqueniques aqui no bairro mesmo para driblar a crise", conta ela, que elenca a oportunidade de emprego como o socorro mais urgente para evitar que todos passem necessidades. Marcelo concorda com a esposa e aponta a falta de industrialização como outro fator que pode explicar o risco de empobrecimento. "Aqui em Londrina não tem emprego de qualidade, as pessoas fazem faculdade para trabalhar como operador de telemarketing ou atendente de shopping", critica o produtor.
Um emprego também é a necessidade mais urgente da desempregada Vanessa Martins, que vive com o filho Bruno, de 11 anos, no conjunto Jerônimo Nogueira. Até o início do ano, ela vivia confortavelmente com a renda recebida pelo trabalho como auxiliar de cozinha em um shopping de Londrina. "A gente tinha tudo em casa, ia ao cinema e até comia em fast-food de vez em quando. Fui demitida por causa da crise e cortei tudo", conta ela, que se apavora com o fim do prazo para recebimento do seguro-desemprego.
"Sinto que tivemos uma oportunidade de melhorar de vida que agora foi tirada. Sem emprego, sinto muita frustração e impotência", lamenta ela, que apenas com prestação da casa, água e energia, gasta R$ 600 mensais.
O filho Bruno já sente no dia a dia o comprometimento da renda da mãe, que reduziu o consumo do feijão e tenta manter na mesa o frango e a linguiça. "Feijão está tão caro que virou a nova mistura", brinca ela, que espera ter uma oportunidade em breve para que a situação não se agrave.


