Apesar de trazer realização para a maioria das mulheres, a maternidade não tem lugar de prestígio na sociedade, não gera influência na organização social e, muitas vezes, impede a concretização de outros projetos femininos. A opinião da doutora em sociologia Silvana Mariano, professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL) - para quem a maternidade é uma responsabilidade social - evidencia a triste realidade das duplas e triplas jornadas enfrentadas pelas mães trabalhadoras.
Uma das consequências deste fenômeno é a abreviação da licença-maternidade por um número cada vez maior de mulheres. O problema ganhou visibilidade nos últimos dias com o caso de Marissa Mayer, uma das executivas mais bem pagas do mundo, que assumiu o inusitado compromisso com seu novo contratante, o Yahoo!, de voltar a trabalhar duas semanas após o parto. Aos 37 anos, Marissa está grávida de seis meses e deixou o emprego de 13 anos no Google para assumir o cargo de presidente executiva da empresa concorrente, para ganhar US$ 1 milhão por ano.
Se por um lado a executiva foi admirada por outras profissionais - até porque não é todo dia que uma mulher consegue ser contratada durante a gravidez -, por outro levantou uma importante discussão: até onde as mulheres devem sacrificar o papel de mães para manterem-se competitivas no mercado de trabalho?
Pela legislação brasileira, todas as mulheres têm o direito a quatro meses de licença-maternidade, com a possibilidade de estender este período por mais dois meses, se a empresa quiser. Durante os quatro primeiros meses da licença, o salário é pago pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e os outros dois pela empresa. Porém, a despesa que o empregador tiver com os dois últimos meses de licença poderá ser descontada na declaração anual do Imposto de Renda. A maioria das empresas ainda reluta em adotar o afastamento remunerado de seis meses - a ideia reinante é que quatro meses já é muito tempo.
Futuro emocional
Para os pediatras - e também para muitas mães - ficar em casa com o filho nos seis primeiros meses de vida é o mínimo para garantir sua saúde física e emocional. ''A Sociedade Brasileira de Pediatria defende a universalização da licença-maternidade de seis meses, que é o período preconizado, inclusive pela Organização Mundial da Saúde (OMS), para a criança mamar exclusivamente no peito. Esta fase é importantíssima para o bem-estar da criança e da mãe'', defende o pediatra José Carlos Schaefer.
O médico diz ver com temor a tendência de as mães voltarem cada vez mais cedo para o trabalho. ''Quando a mãe tem que se dividir entre as tarefas com o filho e a profissão, ela fica muito estressada, aumentando muito as chances de a amamentação ser prejudicada'', argumenta. Para Schaefer, as mulheres têm que se preparar para a maternidade. ''É preciso ter consciência que os dois primeiros anos de vida do bebê são determinantes para o seu futuro e exigem muita dedicação dos pais. O ideal é que a mãe tenha disponibilidade de tempo para o filho e que o pai a apoie, incentivando a amamentação. Crianças que mamam no peito têm menos doenças até depois de adultos, apresentam melhor desenvolvimento neuropsicomotor e tornam-se pessoas mais seguras'', atesta o pediatra.
Schaefer confessa que fica preocupado com o futuro emocional das crianças separadas precocemente das mães. ''A terceirização da criação prejudica o vínculo entre mãe e filho. Acho que a mulher que quiser ter filho tem que parar e pensar: 'Agora é hora de ser mãe.''' (Com Agência Estado)
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