Repórter vivencia regressão
Na sala de aula da segunda série do antigo primário, a menina de 8 anos, que prezava pelas boas notas, esqueceu pela primeira vez de fazer o dever de casa. O motivo justificava a falta: no dia anterior, o pai tinha passado mal e acabou hospitalizado.
Diante da bronca da professora, porém, a aluna não conseguiu se defender. Foi levada à diretoria e, mesmo diante de novas repreensões, continuou calada. Ela não tinha sido a única a descumprir o compromisso. O filho da dona da escola também estava sem a tarefa feita, mas, sabe-se lá porque, a menina que orgulhava-se do comportamento exemplar foi a única a ficar diante da temida figura da diretora.
Na sala, sozinha com a mulher, a pequena estudante ouviu calada toda a repreensão. Pela primeira vez, também, experimentou sentimentos de humilhação e injustiça.
O fato, ocorrido há 30 anos, estava guardado na memória da jornalista que foi ao consultório do terapeuta para fazer esta reportagem. Incentivada a submeter-se a uma sessão de terapia de vivências passadas, ela experimentou reviver emoções que afloraram em um processo catártico que, contraditoriamente, trouxe sensação de leveza ao final.
A lembrança mais importante não foi mencionada: ao informar à mãe sobre o ocorrido na escola, a genitora foi até a diretora tirar satisfações sobre o comportamento equivocado das pedagogas. E a menina, que hoje também tem filhas, entendeu a importância da proteção para aqueles que ainda não conseguem se defender sozinhos.
Ao contrário do que imaginava, a repórter não perdeu a consciência e nem o controle do que foi dito durante a sessão de terapia. O choro incontido, entretanto, comprovou que as emoções ruins vividas há três décadas continuavam guardadas no inconsciente. Trazidas à consciência, elas ofereceram à hoje mulher adulta a possibilidade de refletir sobre escolhas que a conduziram por um bom caminho. (C.A)





