REMANESCENTES - Lavoura do asfalto
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domingo, 03 de novembro de 2013
Fábio Galão<br> Reportagem Local 
A Lei de Zoneamento, Uso e Ocupação do Solo de Curitiba, publicada há 13 anos, acabou com a figura das áreas rurais no território da capital paranaense e definiu o município inteiro como área urbana. Mas não existe "canetada" que mude uma realidade: Curitiba ainda possui remanescentes rurais.
Alfredo Iabonski, de 72 anos, produz mandioca, milho, feijão, tomate e outros alimentos em uma propriedade de três alqueires na Colônia Augusta, a apenas 15 quilômetros do Centro. "Trabalho na terra desde criança. Meu pai era dono da propriedade", relata. Desde então, viu muita gente desistir da produção agrícola. "Não dá nem para comparar. Antes, aqui era tudo chácara. Agora é tudo vila, loteamento. Sobraram seis famílias (que trabalham com agricultura)", descreve Iabonski.
Ele diz não ver problemas em ser produtor rural no território da principal metrópole paranaense e uma das maiores do Brasil. "Para mim é até melhor. É mais fácil vender. Vendo a produção para mercadinhos pequenos, quitandeiros. O pessoal vem comprar aqui", explica. Entretanto, ele acha difícil que a família dê continuidade à produção na área. "Meus filhos não trabalham com a terra. Eles se formaram e foram embora. Hoje em dia trabalhar com lavoura pequena não é muita vantagem", justifica.
O Paraná deve grande parte do seu desenvolvimento e da sua força econômica ao campo, mas nas últimas décadas, com o êxodo para as cidades e a mecanização da produção, a população rural não para de diminuir. Mesmo assim, lavouras resistem em ambientes praticamente 100% urbanos.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Paraná tem dois municípios em que toda a população mora na cidade: Curitiba e a vizinha Pinhais. Dos demais 397 municípios, o que mais se aproxima dos 100% é Matinhos (Litoral), onde 99,49% dos habitantes residem na área urbana.
Em Curitiba, segundo a pesquisa Produção Agrícola Municipal (PAM), divulgada em outubro pelo IBGE, as principais lavouras do município são de milho, mandioca, feijão e uva. Em 2012, essas quatro culturas somaram área colhida de 129 hectares no território curitibano e uma produção de mil toneladas, que chegou ao valor de R$ 440 mil.
Em Pinhais, as duas principais produções agrícolas, milho e mandioca, atingiram o valor de R$ 77 mil em 2012. Em Matinhos, as quatro maiores lavouras, arroz, banana, cana-de-açúcar e mandioca, chegaram a R$ 232 mil foram produzidas 431 toneladas, em uma área total de 50 hectares.
Remanescentes
Em 2009, a Secretaria Municipal do Abastecimento de Curitiba realizou um levantamento dos remanescentes de áreas rurais da Capital, e apurou que a cidade ainda possuía 275 propriedades rurais, que somavam o equivalente a 3% do território curitibano. Segundo a prefeitura, havia propriedades rurais em 23 dos 75 bairros da cidade, a maioria na Região Sul. O Umbará, com 38 remanescentes, era o bairro com maior concentração de propriedades.
Cecília Dibas Markowicz, de 58 anos, e o marido, Osvaldo Markowicz, de 55, moram há mais de 20 anos em uma propriedade de dois alqueires na Colônia Augusta, onde plantam mandioca, cebola, feijão e milho. Antes, trabalhavam com lavoura em uma propriedade vizinha, que era da sogra de Cecília.
Dois dos três filhos do casal ajudam na produção e a esperança da família é que o apreço pela lavoura continue atravessando gerações. "Minha família e a do meu marido são de produtores rurais. A gente gosta muito de trabalhar com a terra. Faz parte da história da família", diz Cecília. Enquanto os Markowicz se dedicam à terra, a metrópole continua crescendo nos arredores. Mas eles dizem não sentir os efeitos da poluição, da especulação imobiliária, do agito da vida urbana. "Aqui é um pouco afastado, então para a gente não tem problema", garante Cecília.
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