RELIGIÃO - O catolicismo além dos sacerdotes
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de outubro de 2013
Lúcio Flávio Moura<br>Reportagem Local 
Elas têm família, profissão e muita, muita fé. Confessam que são "apaixonadas por Jesus" e, por vezes, são observadas por olhos que veem nelas verdadeiras divindades. Sem muita notoriedade fora do universo católico e sem recursos para anunciar seus eventos, dependem da divulgação boca a boca, que as faz ganhar projeção nacional. Para sacramentar a difusão de suas ideias, já usam maciçamente as redes sociais e aos poucos vão conquistando espaço também no rádio. São as pregadoras formadas nos grupos de oração da Renovação Carismática.
A reportagem da FOLHA foi descobrir o que pensam estas mulheres sobre o fenômeno que atrai milhares de fiéis às paróquias em horários em que não há missa. Todas fazem questão de dizer que são obedientes à hierarquia católica e afirmam que as celebrações tradicionais não devem ser abandonadas. Respeitam a agenda oficial da arquidiocese, mas também já conquistaram padres, que já as convidam para concorridas pregações, sejam em bairros distantes dos grandes centros ou nas igrejas matrizes das pequenas cidades.
"Creio que o que mais atrai os fiéis é nossa ousadia, nossa forma determinada de louvar a Deus", afirma a professora Jessica Elizabeth Gonçalves Pieri, pregadora há 15 anos e vinculada à Paróquia Sagrados Corações, no centro de Londrina.
"Nada substitui a missa: é a oração mais completa que existe para um cristão. É lá que o fiel recebe o Jesus eucarístico, nossa fonte de vida", orienta. "Costumo dizer nas pregações: missa mais grupo de oração é igual à certeza de sucesso na sua vida pessoal."
Uma das mais festejadas líderes carismáticas da região é Vera Lúcia Casagrande, pregadora há 26 anos em Arapongas. Oriunda da Paróquia São Vicente Palotti (Vila Nova), ela é hoje uma das mais concorridas oradoras da nova Igreja Católica. Vendeu 70 mil cópias em seus dois primeiros livros e já prepara o terceiro, aguardado com grande ansiedade. A "estrela", no entanto, diz que nunca sentiu vontade de ser uma sacerdotisa e que concorda que o clero seja formado apenas por homens. "Não vejo as mulheres celebrando missas. Principalmente por causa da pessoa de Jesus. A presença do homem no sacerdócio é única e encantadora. É possível cumprirmos nosso papel muito bem como pregadoras", diz.
Todas as pregadoras ouvidas pela reportagem fazem questão de dar testemunhos sobre curas, um aspecto que de tão predominante parece ser o real motivo de muitos fiéis saírem de casa para vê-las. A vendedora Andressa Luzia Cândido Bandeira, de 26, diz que Vera Casagrande mudou sua vida. "Aos 16 anos tive meningite e acumulei água no cérebro. Tinha uma dor de cabeça constante e muito forte. Comecei a ir na novena e pedir cura ajoelhada diante do Santíssimo. Logo fui agraciada. E continuo vindo no grupo de oração porque se eu me ausento, passo a semana angustiada, nada dá certo", conta.
A auxiliar administrativo Grasieli Mangussi Carmanhani, também integrante de um grupo de oração em Londrina, afirma que se livrou de uma depressão através de uma oração coletiva e hoje defende este tipo de catolicismo como meio de cura.
Assim como Grasieli e Andressa, muitas outras pessoas querem mostrar que venceram problemas de saúde, familiares ou financeiros ouvindo os pregadores, que frisam que são apenas instrumentos para a intercessão divina. De tanto comentar a "eficiência" dos carismáticos, os fiéis e os pregadores se orgulham em dizer que o rebanho está crescendo e que novos convertidos saem transformados da experiência.
"Gostei demais. As palavras tocam o coração", diz o vocalista Joel Pereira da Silva, que procurou o grupo de oração nesta semana com um objetivo claro. "Minha amiga me indicou. Ela venceu a depressão frequentando uma novena de quebra de maldição", conta. "Quando surgiu um problema na minha garganta, que afetou muito minha voz, decidi buscar ajuda aqui", diz o cantor da noite, que de dia é operador de máquinas. "Já pude sentir uma grande melhora e quero continuar frequentando o grupo", afirma.
Para Jessica, os fiéis não devem frequentar a igreja e os grupos de oração para obter um milagre. "Não há um momento específico de cura. A cura é uma consequência da vida cristã", afirma a pregadora.
A professora de balé Sonia Secco, pregadora há mais de 20 anos, faz questão de ressaltar que as curas não são operadas por elas, mas pelo espírito santo. "Gosto muito de saber que Deus pode me usar no que ele mais precisa", afirma.


