RELIGIÃO - Com a palavra, as mulheres
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sábado, 12 de outubro de 2013
Lúcio Flávio Moura<br>Reportagem Local 
"Traga a salvação para estes irmãos que precisam". A voz feminina sai enérgica, quase um grito. Muita gente chora. De joelhos, olhos cerrados, a prece sai em tom de súplica. Uma maioria pede graças, quase todas relacionadas a males físicos. Em contraponto, uma minoria agradece. No microfone, a pregação prossegue com uma lista de enfermidades a serem derrotadas pelos fiéis. A explosão de fé se converte em sessão de cura. Todos procuram uma solução, aparentemente remota, para as limitações da condição humana. Alguns oram em línguas. Outros se resignam. No comando de tudo, uma mulher de 46 anos, teóloga, chamada por todos ali - um espaço acanhado de não mais de 300 metros quadrados de uma paróquia de bairro de Arapongas de Verinha, ou Vera Casagrande, uma das mais festejadas pregadoras da Renovação Carismática Católica (RCC) no Norte do Estado.
Com agenda cheia por muitos fins de semana, a pregadora araponguense é o símbolo de uma vertente da Igreja Católica que já coloca as mulheres em posição de destaque nas reuniões de fiéis. Se o espaço é pequeno nas tardes de terça-feira, ele se agiganta nos finais de semana, onde não é raro a celebração em grandes auditórios ou ginásios. É o carisma feminino que combate o derrame de fiéis na maior das denominações cristãs, que testemunham ambientes intensamente repletos, que impressionariam até os sacerdotes mais experientes.
Na semana que a maior nação católica do mundo celebrou a festa da sua padroeira, Nossa Senhora Aparecida, símbolo feminino máximo da Igreja, e semanas depois da impactante publicação do artigo do escritor e filólogo espanhol, Juan Arias, no jornal El País (de Madri), revelar que o novo papado tem pretensões de nomear uma mulher cardeal, a FOLHA ouviu algumas das principais pregadoras do movimento para falar sobre a experiência de liderar grupos de fiéis em templos sem precisar de uma batina ou da consagração do sacerdócio.
As pregadoras se dizem contrárias à ordenação de sacerdotes mulheres e garantem que a mulher já tem o devido espaço na Igreja. "O mundo hoje exige mais da Igreja. Só os padres e freiras não dão conta. E na igreja é preciso um ajudar ao outro. Os leigos precisam assumir o seu batismo. E assumir o batismo é evangelizar", afirma a pregadora Jéssica Elizabeth Gonçalves Pieri, uma professora que assumiu a função há 15 anos.
Maria Ivone Ferreira Ranieri, coordenadora arquidiocesana e presidente do Movimento Eclesial da RCC, afirma que a Arquidiocese de Londrina tem 150 grupos de oração em atividade e que 65% dos 1,3 mil participantes efetivos do movimento são mulheres. Segundo ela, deste total, 450 fazem ou estão se preparando para fazer pregações. Neste grupo de elite dos grupos de oração, a proporção se mantém: duas mulheres para cada homem.
No entanto, há quem conteste que o fenômeno das pregadoras carismáticas seja um indício de que o poder das mulheres é crescente na Igreja. "Quando a capacidade de aglutinar fiéis em torno de si colide com o poder do pároco ou das diversas pastorais essas mulheres tendem a ser colocadas à margem da vida das paróquias e comunidades e tornam seu ministério um serviço paralelo dentro da própria comunidade", afirma a estudiosa guatemalteca Brenda Carranza, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, teóloga e mestre em Ciências Sociais.
"A imagem feminina que em geral é pregada no âmbito carismático é a submissão, inspirada num tipo de interpretação da presença de Nossa Senhora. O sacerdócio feminino, sustentado por setores teológicos progressistas tende a questionar essa visão", compara. "Pregadoras carismáticas são alinhadas a um tipo de interpretação do papel da mulher na Igreja, no qual ela, enquanto mulher, não deve competir com o serviço sacerdotal masculino."
No artigo de Arias, no El País, o autor comenta as chances do papa Francisco nomear uma mulher como cardeal: "Ele sabe que o tema feminino dentro da Igreja não está resolvido e não pode esperar. Ele o deixou claro com duas frases lapidares em sua última entrevista a Civiltá Católica: A Igreja não pode ser ela mesma sem a mulher. Não é só uma afirmação. É uma acusação. A frase também pode ser lida assim: A Igreja ainda não está completa porque nela falta a mulher", analisou.
E concluiu: "precisamos de uma teologia profunda da mulher". E essa teologia, o papa dá a entender, não pode ser construída no laboratório do Vaticano, apadrinhada pelo poder. Está sendo construída pelas mulheres dentro da Igreja: "A mulher está formulando construções profundas que devemos enfrentar."
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