RELACIONAMENTOS - 'É um alívio saber que não sou a única'
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domingo, 01 de novembro de 2015
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Após assumir sozinha a responsabilidade de criar e educar o filho Zion, de 2 anos, a blogueira Tatiana Miranda, de 29, encontrou na internet o ambiente para dividir dificuldades e compartilhar sentimentos. Autora do blog "Mãe no Divã", que está presente também nas redes sociais, ela conta que começou a escrever porque se sentia sozinha. Hoje, dá voz a milhares de outras mães que, como ela, estão sozinhas com os filhos. "A maternidade, na minha vida, era diferente do 'mar de rosas' que a mídia tradicional mostrava. Eu não era casada, eu estava desempregada, não conseguia creche, eu não dormia nada à noite, vivia exausta, eu nunca tinha tempo nem para lavar meu cabelo, quem dirá ser aquela mãe toda arrumada das propagandas de TV", recorda ela, que era comissária de voo, engravidou de forma não planejada e ficou desempregada assim que terminou a licença-maternidade.
Tudo aconteceu quando Zion estava com 6 meses. "Me separei do pai do meu filho que voltou para a casa dos pais, na cidade natal. Foi, com certeza, uma das fases mais difíceis da minha vida", conta. Tatiana achava que não conseguia dar ao filho a atenção que ele merecia, porque estava sempre sobrecarregada. "Eu tinha medo de não conseguir ser a mãe que eu gostaria", revela. Ao se deparar com os modelos clichê de maternidade, sentia culpa, frustração e solidão. "Comecei a escrever como era a minha rotina no dia a dia como mãe solo, os meus medos, os meus anseios. Foi aí que, para minha surpresa, outras mães começaram a se identificar e dividir um pouco da história delas comigo também. Descobrir que eu não era a única que chorava sozinha no banheiro, foi, de certa forma, um alívio de toda aquela culpa."
Como mãe solo, ela relata que a sobrecarga de função é uma das maiores dificuldades. "Eu sou não só a principal cuidadora do meu filho, como também a única fonte de renda e sustento da casa. Ao contrário do que muita gente pensa, a pensão funciona apenas como um complemento de renda. Isso quer dizer que não existe revezamento no meu cotidiano, em nenhum sentido", destaca.
Tatiana reforça que a situação gera problemas como a dificuldade em conseguir um emprego, a falta de recursos financeiros e a exaustão diária, além do preconceito. Como autora do blog, ela recebe relatos diários de mães solteiras e também, curiosamente, mães casadas que dão conta de todas as responsabilidades em relação aos filhos. "A maternidade ainda é um lugar muito solitário para a mulher e eu acho que é preciso falar sobre isso mais abertamente, sobre as dificuldades que a gente enfrenta - não só emocionais, mas também sociais - para que a gente comece entender que algumas responsabilidades são distribuídas de forma injusta dentro da estrutura tradicional", argumenta.
Há pouco tempo, Tatiana escreveu um texto questionando o papel dos pais em relação às responsabilidades e o texto viralizou, tendo sido compartilhado por milhares de mães que experimentam as mesmas dificuldades. "Eu estava cansada de ler em comentários algumas pessoas querendo justificar pais ausentes, com preconceitos clichês. Estava cansada de ler por aí que a culpa do pai ser ausente é da mãe - aquela que ficou com a responsabilidade integral de criar e sustentar. Até disso o pai se ausenta, da culpa de ser ausente. Aquilo para mim era demais", conta.
Apesar de saber que o tema sempre gera muita comoção entre as mulheres, ela se surpreendeu com a repercussão. "O texto falou o que muita mãe solteira sempre quis falar, por isso foi tão compartilhado. A gente passa a maternidade toda vivenciando e ouvindo esses pequenos preconceitos sem poder contar a história inteira. Às vezes, quando você pega uma situação isolada, um recorte daquela separação, pode parecer mesmo que a culpa da ausência do pai, é da mãe. Mas é preciso dar um passo para trás, ouvir a história dessas mulheres - que é longa, suada, cansativa - para entender o que elas sofreram. Não dá para resumir a infância de uma criança ao valor da pensão que a mãe recebeu."


