REFORMA AGRÁRIA - Mesmo na lona preta, o futuro já raiou
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de outubro de 2013
Lúcio Flávio Moura<BR>Reportagem Local 
Uma hora de viagem de carro é suficiente para que se revele uma Londrina surpreendente. Um grande centro urbano, com um punhado de shoppings e um amontoado de edifícios, o eldorado de ontem - que hoje exala prosperidade - dá lugar a um cenário quase secreto: uma considerável porção de terra acidentada, tomada por centenas de barracos de madeira ou de lona. À distância, a imagem lembra uma enorme favela no meio do nada. De perto, porém, a sensação de que tudo vai mudar marca mais cada uma das vielas do que a pobreza extrema.
As 500 famílias cada vez mais entendem o conceito de inclusão tão propagandeada pelo governo federal. Tudo está prometido: as estradas, a casa nova, os recursos para comprar implementos e insumos, a assistência técnica, a escola, o posto de saúde, uma renda digna. A maioria encara o momento como a realização de um sonho nutrido desde a infância. Na comunidade, vivem trabalhadores rurais de diferentes sotaques, que vieram de pelo menos sete acampamentos espalhados pelo Paraná e encontraram em Londrina o que procuraram a vida inteira, a chance de lavrar a própria terra. Estão no local desde 2009, quando ocorreu a ocupação. Muitos deles cresceram em moradias improvisadas, estudaram em escolas do MST e se prepararam para assumir o lote. Quando as terras em Lerroville foram desapropriadas pelo governo federal, Londrina surgiu como a última esperança para um número grande de famílias. Foi então que acabaram reeditando uma corrente migratória que remete ao auge da colonização do Norte do Estado. A diferença principal, porém, é que aquele fluxo migratório foi estimulado pela monocultura cafeeira. No Eli Vive, o que seduz é a diversificação da economia rural.
Neguinho dos Bois, ou Sodinei Moreira da Silva, de 35 anos, é um dos mais ansiosos para viver esta transformação. Na terça-feira, quando a reportagem da FOLHA visitou o assentamento, ele já estava no lote novo, beneficiado pelo fácil acesso pela estrada principal. Feliz da vida e acompanhado do filho mais velho, Sidimar, de 12 anos, que fez questão de acompanhar o pai no dia de folga na escola, Neguinho arava a área de 9 hectares. Os bois Mascarado e Queimado, protagonistas na lida, rasgavam o solo com vontade. Enquanto isso, o coadjuvante contava sua história. "Vivo há 12 anos em acampamentos. Sempre esperei por isso e agora não vejo a hora de plantar. Quando soube qual era o meu lote, decidi que ia plantar o mais rápido que eu conseguisse", justifica. Nos planos, uma lavoura variada, com batata doce, feijão e milho. O pai de quatro filhos está fascinado pela ideia da estabilidade, coisa de quem sofreu com uma rotina errante. "Pretendo morrer aqui", diz ele, natural de Dois Vizinhos, no Sudoeste.
A lavradora Lourdes Bento, de 52, vive com a filha Roselaine e um casal de netos no assentamento há quatro anos. A reportagem a encontrou no mercado da associação comunitária, onde ela comprava leite para as crianças. O sonho dela é ver as vassouras que ela produz nas prateleiras dos supermercados de Londrina. Lourdes pretende plantar pelo menos um alqueire da matéria-prima. Outro produto que ela quer produzir é a batata doce. Assim como outros assentados, ela aguarda a instalação da rede de água nos novos lotes para fazer a mudança.
É o caso de Siloer de Jesus, de 58, o Barriga, que "não vê a hora" de ir para o novo lote. Ele vive acampado com a mulher e o filho de 20 anos há mais de uma década. Mas antes da transferência, já tornou o lote produtivo. Plantou mandioca, milho e arroz. Até o final do ano, pretende começar a construir sua nova casa. A madeira já está empilhada no quintal. "Quando for entregue a casa de alvenaria, nós vamos usar esta casa de madeira como paiol." Nos planos, a ideia da diversificação. "Lá eu vou cultivar abobrinha, batata doce, feijão, milho verde e ter uma criaçãozinha", diz.
Os jovens e adolescentes também estão fascinados com a ideia da família ter um pedaço de terra. Até mesmo quem vive na cidade mas tem uma ligação afetiva com o assentamento, passou a ter esperança de ter uma vida confortável na zona rural. Raiana da Silva Rodrigues, de 17, é um exemplo. Oriunda de um bairro pobre de Londrina, o Jardim Vila Rica, ela e a irmã mais velha, Tabata, de 20, são instrutoras de arte circense na comunidade. Elas dão aulas semanais para um grupo de 11 meninas da comunidade, que recebem noções de dança e acrobacia. O grupo já se apresentou em outros estados em festivais culturais promovidos pelo MST. A atividade cultural no assentamento faz Raiana pensar em se radicar de vez no assentamento e trabalhar em uma das duas escolas que serão construídas pelo Incra.


