Londrina é um município de características geográficas peculiares. A sede fica no extremo norte, deixando uma imensidão de zona rural ao sul. Nos confins do vasto território, no limite com Tamarana, está instado o maior assentamento de trabalhadores sem terra em uma área metropolitana no País, o Eli Vive, uma comunidade rural tão numerosa quanto carente, 60 quilômetros distante dos olhos citadinos. Mas é lá que pode estar surgindo a mais promissora experiência de desenvolvimento comunitário da região, um projeto que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) enxerga como um modelo de inclusão e com perspectiva de um novo modo de vida no campo.
Por enquanto, o cotidiano da comunidade de 500 famílias e 2 mil moradores parece ter sido transferido para outro lugar, o futuro. Nos vales de Lerroville, paisagem de transição do terceiro para o segundo planalto paranaense, contudo, a pergunta que ecoa nestes dias não para de ser ouvida. "Quando começa a construção das estradas?"
Distribuídas em duas parcelas de terra, antes ocupadas pelas fazendas Pininga e Guairacá, os 7,2 mil hectares já estão devidamente repartidos. Os marcos de concreto são fixados todos os dias, a previsão dos topógrafos é que até o final do ano todos os assentados saibam exatamente onde começa e onde acaba cada área, que vai variar de 8 a 14 hectares.
Há três semanas, os assentados souberam em qual lote vão viver e trabalhar, em um dia festivo, onde foi realizado um concorrido sorteio com a presença de autoridades. Desde então, a ansiedade só aumentou. A casa nova, a lavoura própria - os sonhos que amenizaram por tanto tempo a vida dura na lona preta – já se materializaram na imaginação dos assentados e a questão das estradas ainda é o suspiro de dúvida que ameaça a certeza de redenção. Segundo o projeto do Incra, serão necessários 90 quilômetros de malha para permitir a chegada dos itens de construção e dos apetrechos para erguer as moradias e, num segundo momento, para escoar a produção. Hoje, a visita de alguns lotes só é possível a pé ou a cavalo.
De acordo com o superintendente do Incra no Paraná, Nilton Bezerra Guedes, esta semana o instituto abre uma concorrência pública para escolher qual empresa fará o projeto executivo da malha, avaliada em R$ 4 milhões. "A ideia é construir estradas rurais de qualidade, com leitos elevados e cascalhados", garantiu.
Ao contrário de outros projetos do Incra, onde as prefeituras cedem maquinário e pessoal para as obras, o governo municipal informou o órgão federal que não pretende participar do esforço de construção das vias.
O diretor de Desenvolvimento Rural da Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento, Osvaldo de Souza Campos Junior, afirmou que a atribuição é do Incra. "A prefeitura já está realizando a manutenção da estrada principal de acesso ao assentamento", defendeu-se. De fato, a reportagem constatou a benfeitoria na Estrada do Guairacazão, repleta de máquinas na última terça-feira.
Guedes disse que ainda espera uma colaboração do prefeito Alexandre Kireeff (PSD), que compareceu no sorteio dos lotes, ocasião na qual declarou que a estrutura da prefeitura estaria à disposição dos assentados. "Reconhecemos a luta dos trabalhadores rurais e temos certeza que aqui será um assentamento de muito sucesso", disse o prefeito durante a solenidade.
A participação ou não da prefeitura na abertura das estradas não deve interferir no cronograma, segundo Guedes. Caso a prefeitura realmente não ceda equipamentos e mão de obra, tudo será feito por uma empreiteira. O Incra prevê que a tarefa consumirá seis meses. Para o conjunto habitacional, o prazo é bem maior: final de 2016.
A construção das casas será feita no sistema de mutirão, coordenado pela associação comunitária. Segundo o assentado e coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Jauri Dias, cerca de 70 moradores da comunidade têm experiência com construção civil e vão liderar o trabalho. Cada família vai receber R$ 28 mil para erguer casas de 46 metros quadrados.
O Incra pretende fazer as moradias em uma linha imaginária a 30 metros da margem de cada uma das estradas principais. O alinhamento das unidades facilita a instalação da rede de energia e de água. "A ordem da nossa lista de prioridades é a seguinte: primeiro a estrada, segundo a moradia e terceiro as rede de água e energia", enumerou Guedes.
No total, o governo federal vai investir cerca de R$ 50 milhões no projeto que promete transformar a economia rural do sul de Londrina. De acordo com o Plano de Desenvolvimento do Assentamento (PDA), a produção dos lotes vai se integrar à cadeia de gado leiteiro da Cooperativa de Comercialização e Reforma Agrária União Camponesa (Copran), do assentamento Dorcelina Folador, em Arapongas. O Incra também planeja a consolidação de um polo de produção cafeeira e de hortaliças.

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