O que muita gente já desconfiava foi comprovado em uma pesquisa de Samy Dana, professor da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo (FGV): o ingresso de cinema no Brasil é um dos mais caros do mundo.
Para a pesquisa, divulgada em fevereiro, o professor Dana pesquisou o preço do ingresso em grandes cidades de 19 países diferentes para sessões de estreia, na sexta-feira ou no sábado, do filme ''O Hobbit''. Em seguida, converteu os valores em dólares, considerou as rendas per capita locais e os rendimentos médios por hora de trabalho. Dessa forma, chegou a um ranking de quanto tempo de trabalho é necessário em média para uma pessoa conseguir comprar um ingresso de cinema.
No Brasil, segundo a pesquisa, seriam necessárias 2,23 horas de trabalho para um espectador juntar dinheiro suficiente para adquirir um ingresso. Só três países ficaram à frente: a Nigéria (onde o preço do ingresso equivale ao rendimento de 8,05 horas de trabalho), a China (3,68 horas) e a Índia (3,42 horas).
O último colocado na lista foi Singapura, onde o rendimento médio de um quarto de hora trabalhada é suficiente para comprar um ingresso de cinema. Dois vizinhos do Brasil, a Argentina e o Chile, tiveram índices bem inferiores ao brasileiro, respectivamente 1,09 e 0,49 hora trabalhada.
O professor Samy Dana cita que na Nigéria, que teve o ingresso mais caro entre os países pesquisados, há meia-entrada, a exemplo do que ocorre no Brasil.
''O Brasil pratica preços caros, sob todas as óticas. É o chamado lucro Brasil, os empresários daqui gostam de margens de lucro bem altas, maiores do que em outros países. Mas o exibidor, é claro, tem que pagar funcionários e tem outras despesas, e tem que adotar um preço que inclua (o impacto da) meia-entrada. Um projetista não vai querer meio salário. Então, quem paga meia-entrada paga um preço talvez mais justo, enquanto que quem não tem esse direito paga o dobro'', afirmou Dana, em entrevista à FOLHA.
O professor apurou que em Minas Gerais 75% do público que vai ao cinema utiliza meia-entrada. ''Por que os estudantes têm que ter mais acesso a cultura? Uma pessoa de 21 anos que não frequenta a universidade tem que pagar o dobro?'', disse Dana. Na opinião do professor, além dessa distorção, o sistema de meia-entrada abre brecha para irregularidades, como eventual falsificação de carteirinhas de estudante.
Entretanto, Dana acredita que a meia-entrada não é o único fator que eleva os preços dos ingressos de cinema. Outro complicador seria a concentração de salas em grandes cidades, onde o custo de vida é mais alto. ''Os serviços estão cada vez mais caros'', argumentou.
De acordo com estatísticas da Agência Nacional do Cinema (Ancine), no ano passado, enquanto o público total do setor aumentou 1,75% no Brasil, o preço médio do ingresso cresceu bem mais, 10,21%.
A concentração de salas nas grandes cidades é comprovada por dados da Ancine: em 2010, 61% delas estavam localizadas em cidades com população superior a 500 mil habitantes, e 29% em localidades que tinham entre 100 mil e 500 mil moradores. Portanto, apenas 10% das salas de cinema estavam em cidades pequenas. Dos 5.565 municípios brasileiros, somente 381 tinham cinema.
Dana apontou que seria mais justo que meias-entradas fossem concedidas somente por faixas de idade e defendeu que filmes custeados com recursos públicos, através de leis de incentivo, tenham o desconto de 50% no ingresso.
O professor André Luiz de Souza Dutra, morador de Londrina, conta que vai ao cinema pelo menos uma vez por semana. ''Acho os preços caros. Se a pessoa não tem carteirinha de estudante ou algum outro benefício que dê o desconto, em duas pessoas (o ingresso) já fica uns R$ 40, dependendo da sala, se é sessão 3D... Se for comprar pipoca, refrigerante, se tiver que pagar estacionamento, tudo vai para mais de R$ 50'', afirma Dutra, que procura optar por dias de promoções para aliviar os gastos.

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- Empresas exibidoras questionam pesquisa

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