De acordo com dados do Cadastro Nacional de Adoção, atualmente há na Comarca de Londrina nove crianças aptas a ser adotadas. Destas, seis são pardas e três são brancas. Hoje não há crianças negras na fila, mas se houvesse, provavelmente levariam mais tempo que as outras para conseguirem uma família. É o que mostra o dia a dia da Vara da Infância e da Juventude.
''Normalmente as crianças pardas são em maior número, mas as negras são as que têm mais dificuldades de adoção, mesmo que sejam bebês'', observa a assistente de juiz Daniele da Rosa Bittencourt. Ela revela que a justificativa mais comum dos casais para se negarem a adotar crianças negras é a preocupação com o preconceito por parte da sociedade que vão enfrentar ao longo da vida. ''Mas para mim, este preconceito está nestes casais, porque tudo depende de como eles próprios enxergam aquela criança e como vão tratá-la. Sou totalmente contra aqueles que querem escolher sexo, cor e fazem restrições à presença de doenças, pois são coisas que estamos sujeitos até quando temos filhos biológicos'', argumenta Daniele.
Foi com o coração aberto e livre deste tipo de preconceito que o casal Marcos Ronan Souza Marques e Viviane Kawazaki de Souza Marques acolheu os irmãos Simon, de 4 anos, e Cibele, de 5. Donos de histórias estarrecedoras de abandono e negligência, eles têm hoje uma vida oposta à que tiveram até maio do ano passado. Nos últimos oito meses, eles vivem uma realidade de cuidados, carinho e aconchego que até então lhes era desconhecida.
Os pais contam que nem sempre Simon e Cibele foram tão alegres e espontâneos. E não é para menos. Antes de ganharem os pais londrinenses, eles haviam passado por três tentativas frustradas de adoção. Por três vezes ganharam uma família, por três vezes viram estas famílias desistirem deles. ''Quando os vimos pela primeira vez, percebemos imediatamente que não podíamos deixá-los lá. Mas o amor que sentimos por eles hoje foi surgindo e se intensificando com o passar dos dias e com a convivência. Ainda estamos vivendo um processo de adaptação, pois vivemos sete anos sem filhos e de repente chegaram dois'', conta Viviane, que é coordenadora da Ong Mãos Estendidas, instituição que atende crianças e adolescentes no Conjunto Novo Amparo (Zona Norte de Londrina).
Ela reconhece que muitos casais, no momento de adotar, tentam buscar as mesmas características que teria um filho biológico. ''Conosco nunca foi assim. A cor da pele dos nossos filhos não tem a menor importância. Aqui dentro de casa, ela é imperceptível. O que importa é a difícil história que eles viveram até chegar até nós.'' Marcos e Viviane nunca viveram uma situação de claro preconceito com seus filhos, mas já perceberam que em alguns locais são tratados com certo desdém e até são considerados ''loucos'' por adotarem duas crianças de uma vez, negras e que já não são mais bebês. Para o casal, porém, tudo isso é motivo de orgulho. ''É uma sensação boa saber que estamos fazendo a nossa parte para acabar com o preconceito'', dizem, visivelmente encantados com seus filhos.

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