Na contramão da maioria dos brasileiros, a comerciante Adriana Lins de Oliveira, de Santo Antônio da Platina, resolveu tomar providências práticas quando viu na TV que os vereadores do município votariam uma proposta para aumentar o próprio salário – de R$ 3,5 mil para R$ 7,5 mil – em um ano marcado pela crise econômica. "Soube que eles votariam em sessão extraordinária às 5 horas da tarde, justamente para ninguém acompanhar. Achei aquilo uma vergonha, um desrespeito ao dinheiro público. Chamei minha irmã e meu marido e fomos à sessão reclamar", conta ela, que acabou influenciando a decisão dos vereadores não apenas para barrar o aumento, mas na redução dos salários.
Antes, porém, foi preciso muita mobilização. Adriana conta que, no dia da sessão extraordinária, ela entrou no plenário e fez um discurso inflamado. "Seria uma vergonha nacional, o país sem saúde e educação e eles mais que dobrando os rendimentos. Era dar na cara do povo!", acusou. A reação da comerciante foi gravada por uma pessoa que estava no local. "Ele me pediu autorização para por na internet. Assim que postou, o vídeo viralizou", recorda.
A reação chamou a atenção da mídia e também da população de Santo Antônio da Platina, que segundo Adriana, "deu um show de cidadania" ao protestar contra o aumento. "Parte do comércio fechou as portas para pressionar a Câmara. Deu certo, porque ao invés de aumentar, reduziram o salário para R$ 970", comemora.
A iniciativa da população trouxe muitos veículos de comunicação para a cidade e a divulgação do protesto acabou incentivando o mesmo tipo de movimento em outros municípios. Adriana, que até então não se interessava por política, garante que está muito mais antenada sobre o assunto e planeja, em breve, organizar um observatório público na cidade. "Meu objetivo é montar um grupo para fiscalizar a utilização dos recursos públicos. Também acho importante haver um portal da transparência", exige.
A comerciante argumenta que o Brasil é um país rico e que o dinheiro economizado com uma boa gestão dos recursos públicos pode ser revertido para saúde e educação, por exemplo, que são áreas que considera deficitárias. "Um país rico não pode ter corrupção", cobra ela, que garante ter aprendido, com a experiência de liderar o movimento contra o aumento dos salários, "que o maior poder é o do cidadão". "Eu era alienada, mas agora quero dar um exemplo de cidadania para minhas filhas. Somos nós que podemos mudar o Brasil", acredita.

TRANSPARÊNCIA NAS LICITAÇÕES
Em Apucarana, o Observatório Social iniciou a fiscalização das licitações públicas em 2010 e, desde então, tem mudado a relação dos empresários com o poder público. A secretaria executiva da entidade, Lucileide Jacinto, conta que o Observatório foi criado após a Associação Comercial do município conhecer iniciativa semelhante de Maringá. "Nosso foco é transparência e controle social", diz.
A entidade acompanha sistematicamente as licitações públicas, desde a abertura dos editais até os certames. Além disso, implementaram um sistema informatizado de monitoramento de licitações que permite cadastrar empresas por ramos de atividade. "Quando há licitações, automaticamente as empresas cadastradas daquela área são notificadas", explica. A democratização das informações é um dos caminhos para evitar fraudes. "Quanto mais empresas participando do processo, menor a chance de haver conluio", avalia.
Empresas de outras cidades cadastradas na Rede de Observatórios do Brasil também são comunicadas das licitações em Apucarana. "São mais de mil empresas cadastradas apenas na cidade. Percebemos que a participação aumentou", conta, destacando que o Observatório já interviu em certames com identificação de sobrepreços. "Atualmente identificamos fragilidades ainda na fase de editais e conseguimos corrigir antes. Temos conseguido realizar um trabalho preventivo", acrescenta.
Outra ação contundente do Observatório Social de Apucarana foi com relação ao número de cadeiras para a função de vereador na cidade. Segundo Lucileide, a Câmara queria aumentar de 11 para 19 vagas, mas a entidade conseguiu apresentar um projeto de iniciativa popular questionando o aumento. "Coletamos sete mil assinaturas para apresentar o projeto, que acabou não sendo aprovado. Ao final, elevaram para 15 cadeiras, pois perceberam que a comunidade estava mobilizada contra o aumento", revela.
Outra iniciativa foi impedir o aumento dos salários do prefeito e dos vereadores, a exemplo do que ocorreu em Santo Antônio da Platina. "Foi outra campanha com grande apoio da comunidade", diz. Tantas mobilizações são realizadas com uma estrutura enxuta. Além de Lucileide, a outra funcionária da entidade é uma estagiária. "Trabalhamos com o apoio de 15 voluntários."

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