'Quanto mais eu falo, menos dói'
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sábado, 19 de setembro de 2015
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Os braços cheios de cicatrizes guardam uma parte triste da história de Paulo (nome fictício), que desde muito jovem sentia-se infeliz e, como medida extrema, tentou se suicidar em várias ocasiões. Aos 31 anos, ele percebe, hoje, que sempre buscou aceitação. "Infelizmente, o grupo que me aceitou foi o das drogas", conta o rapaz, que chegou a ser internado aos 20 anos, após sofrer um acidente e ter uma crise de abstinência no hospital, o que levou a família a descobrir o uso de droga. "Sou adotado, mas não lidava bem com isso, porque minha cor era diferente do resto da família. Sentia-me preterido porque as pessoas de fora comentavam que eu não era como meu irmão. Isso me tornou inseguro", lembra.
Após a passagem pela clínica, ele se casou bem jovem. Quando a esposa engravidou, o rapaz passou a usar cocaína sistematicamente, o que só piorava a depressão. "Minha esposa não sabia que eu usava drogas, mas meu vício afetava nossa vida, porque eu mentia, manipulava as pessoas e comprometia nossa saúde financeira. Ela se aborrecia e ameaçava me largar. Como eu tinha depressão e me sentia dependente dela, tentava me matar a cada vez que ela mencionava a separação. Eu tinha depressão, mas não enxergava. Pensava que se perdesse minha esposa, minha vida perderia o sentido", recorda.
O último episódio de pensamentos suicidas ocorreu há menos de um ano. Desta vez, porém, Paulo conta que fez um plano mais eficiente para acabar com a própria vida, em parte porque familiares descobriram as tentativas anteriores. "Eu não sabia lidar com a questão e o desejo foi ficando mais forte, queria morrer independentemente de qualquer coisa. Hoje vejo que era egoísta", avalia.
A salvação veio através de um colega de trabalho, que percebeu o sofrimento e ofereceu ajuda. "Foi a primeira vez que consegui falar. Ele chamou nosso superior, que é uma pessoa religiosa, e eu consegui contar tudo: que usava drogas, que queria tirar minha vida. Neste dia pedi para ser internado", relata.
Após o episódio, foi para uma comunidade terapêutica e, hoje, comemora oito meses longe das drogas. "Me apeguei à espiritualidade e passei a ver outro sentido na vida", conta. Após o fim do tratamento, ele atualmente frequenta um grupo de apoio.
Diante de tantas experiências, ele garante que a salvação está na solidariedade. "Ter alguém para ajudar sem julgar a pessoa que pensa em se matar é muito importante", desabafa, contando que deixou o antigo relacionamento porque não queria mais ser dependente e viver uma rotina doentia. "Considero um milagre estar aqui, sou uma criança aprendendo a viver", afirma.
Para ele, a cura está na comunicação. "Quando a gente guarda a angústia, perde o controle. Quanto mais eu falo, menos dói", analisa Paulo, que continua tendo dificuldades e dúvidas sobre o melhor jeito de resolver os problemas e, vez ou outra, se vê tomado pelo "baixo astral". "A diferença é que aprendi a partilhar. Quando falo, também escuto e consigo refletir."
Depressão
Alice (nome fictício), de 33 anos, sentia-se diferente do restante das pessoas desde muito jovem. Ainda na primeira infância, não gostava do contato com outras crianças, era muito introvertida e tinha dificuldades para se relacionar. Os adultos que conviviam com ela, porém, não viam problemas nesse comportamento. "Sempre fui boa aluna, por isso ninguém percebia que eu tinha dificuldades. Achavam que eu era uma menina tímida e nada mais", lamenta.
A primeira tentativa de fazer mal a si mesma ocorreu aos 6 anos de idade, quando Alice se jogou de uma escada da escola. "Não conseguia elaborar meus sentimentos, mas me sentia triste e queria fazer mal a mim mesma. Também tinha muito medo do meu pai, que era agressivo e batia demais no meu irmão", conta.
Na adolescência, as dificuldades só aumentaram. Cada vez mais isolada, ela entrou em depressão e passou a ter pensamentos suicidas mais elaborados. "Sentia um vazio, a vida era muito dolorida. No início, pensava que não queria existir. Com o tempo, decidi encerrar aquela dor", diz. A primeira tentativa ocorreu aos 16 anos, mas por sorte Alice não teve êxito. Apesar de ter passado mal, ninguém, nem mesmo os pais, perceberam o ocorrido. Dois anos depois, ela tentou novamente, desta vez com sequelas. Os pais acharam que era uma intoxicação e a levaram para o hospital, onde um clínico geral finalmente acolheu o sofrimento da moça. "Ele percebeu que eu estava desesperada. Foi aí que comecei a me tratar", conta.
Para Alice, todos os suicidas estão pedindo ajuda e têm esperança de serem salvos por "um triz". "Como ninguém via minha dor, eu me sentia invisível. Por isso, também não sabia a quem recorrer", conta. Até receber tratamento e ser diagnosticada com transtorno bipolar, ela se sentia "um lixo". "Hoje sei que tenho uma doença e que preciso de tratamento."
Por isso, ela faz um apelo aos pais para que prestem atenção nos filhos. "Ninguém brinca com esse assunto. Se a pessoa comenta algo sobre tirar a própria vida, é preciso investigar", diz, lembrando que na adolescência os colegas percebiam que ela estava mal, mas os adultos continuaram "cegos". "Informações existem, mas nem todo mundo entende que depressão é uma doença grave. A boa notícia é que existe tratamento, medicação e terapia. Os suicidas dão sinais claros, os outros é que não conseguem enxergar."
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