Nos últimos anos, aumentou sensivelmente o número de estudos e pesquisas de brasileiros e brasilianistas sobre a escravidão. Isso é consequência direta do maior interesse desencadeado, em 1988, pelo centenário da Abolição. Somente naquele ano, foram publicados mais de 100 livros sobre o assunto, além de periódicos acadêmicos, congressos e da discussão na mídia em geral.
Vários líderes de movimentos de consciência negra consideraram a data ''vazia'' de conteúdo, preferindo enfatizar a situação social ainda precária dos descendentes de escravos no Brasil. Apesar disso, é inegável que o aniversário da Lei Áurea serviu para incentivar a reflexão sobre esse importante fato histórico, que não pode ser esquecido. Afinal, o Brasil foi o maior país escravista das Américas e o maior importador: em três séculos e meio compramos na África cerca de quatro milhões de nossos antepassados. E o 13 de maio de 1888 marcou o fim da escravidão no Ocidente, já que fomos o último país ocidental a aboli-la.
Acaba de sair um livro que, reunindo cinco textos escritos em épocas diferentes, trata das dificuldades dos escravos para assumirem o papel de agentes de seu destino: ''Escravos, Roceiros e Rebeldes'', do brasilianista Stuart Schwartz, professor da Universidade de Yale, sintetizando mais de 25 anos de magistério e pesquisa da História do Brasil.
Schwartz começa com uma avaliação bastante abrangente da evolução e tendências da historiografia recente, que divide em antes e depois do centenário. Atribui a ''Casa-grande & Senzala'', de 1933, a importância de marco fundamental para a análise da escravidão no país, apesar de uma visão idealizada de ''democracia racial'' na sociedade brasileira que decorre da obra de Gilberto Freyre.
Em seguida, refere-se às relações de trabalho como fator que define o próprio regime de escravidão, a partir de um exame das condições de vida nos engenhos de açúcar, com sua característica peculiar de atividade agrícola e industrial. Segundo o autor, para obter dos escravos a colaboração e qualidade necessárias aos serviços das ''fábricas'', os senhores, ao contrário do que faziam com os negros das plantações, não recorriam a castigos físicos. Havia um sistema de incentivos, como a concessão de um ''tempo livre'' para que os escravos pudessem trabalhar nas próprias lavouras de subsistência.
Conta-se, inclusive, o extraordinário caso, ocorrido em fins do século 18, de um grupo de negros que foge de um engenho baiano, e depois negocia com seu proprietário uma pauta de reivindicações para voltar ao trabalho, tais como: semana de quatro dias, aprovar a nomeação de feitores ou ''brincar, cantar e folgar'' sem necessidade de prévia licença.
Diferentemente de muitos autores, Schwartz considera a agricultura de exportação (à qual está associada a economia escravocrata) e a de subsistência (exercida pelos ''roceiros''), como ''as duas faces da mesma moeda''. Mostra como a agricultura dos ''roceiros'' se desenvolve paralelamente à exportadora, sendo essencial ao abastecimento do mercado interno, e acaba por incorporar mão-de-obra escrava.

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