Saindo do achincalhe, as páginas dos livros costumam perdoar e aceitar mentiras de todas as espécies. Na literatura decente, mentira chama-se ficção. E, na escrita de Mario Vargas Llosa, ‘‘na ficção, a mentira deixa de sê-lo, porque é explícita e sem rebuços, se mostra como tal desde a primeira até a última linha’’.
Em ‘‘Vozes do retrato - Quinze Histórias de Mentiras e Verdades’’ (Editora Ática, 60 págs.), Dalton Trevisan usa a mentira para dizer verdades. Através de 15 contos ficcionais protagonizados por personagens comuns, absolutamente verossímeis, o escritor paranaense mostra quão tirana pode ser a vida e as relações humanas. Trata-se da imaginação apresentando ‘‘a realidade como ela 钒.
Já Reinaldo Arenas moldou, em ‘‘O Mundo Alucinante’’ (Editora Record, 304 págs.), uma fantástica amálgama de fatos e devaneios ao contar a história do teólogo, escritor, dissidente político e religioso Servando Teresa de Mier, nascido em 1763, em Monterrey, México.
Arenas (retratado no filme ‘‘Antes do Anoitecer’’) buscou a fundo informações sobre o frade. Foi a museus, bibliotecas e embaixadas. No final das contas, como anotou no prefácio, descobriu que ele e Servando eram a mesma pessoa. Na cabeça dele, claro. (AE)

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