Dotados de um cérebro condicionado a poupar energia para não passar fome, homens e mulheres contemporâneos experimentam as facilidades impostas pelas tecnologias, que cada vez mais substituem a necessidade de fazer movimentos para ganhar a vida e sobreviver. Sedentários e expostos a grandes quantidades de alimentos, precisam lutar contra as imposições de um cérebro que foi desenhado na pré-história, em uma época em que faltava comida e as pessoas tinham que empenhar muita energia na caça. "Ter o que comer era muito difícil, por isso, após caçar todos sentavam e ficavam quietos para economizar energia. Da mesma forma agem os animais, que depois que deixam de ser filhotes só se movimentam atrás de comida, sexo ou para fugir de predadores", afirmou o médico e escritor Drauzio Varella. Ele foi um dos palestrantes do 5º Congresso de Educação da Rede Pitágoras, realizado neste mês em Belo Horizonte (MG). O especialista falou para um público formado majoritariamente por mulheres que atuam como gestoras de instituições de ensino ligadas à rede.
O resgate da história da humanidade foi utilizado para explicar porque, apesar de tantos avanços na área da medicina, as pessoas são cada vez mais obesas e suscetíveis a doenças que interferem na qualidade de vida e levam à morte, como diabetes e pressão alta.
Conforme o médico, o homem só deixou de ser nômade há dez mil anos, quando desenvolveu a agricultura. "Nessa época, entretanto, o trabalho era braçal. Com a mecanização no século 20, a vida ficou mais sedentária. Foi após a Segunda Guerra que as pessoas pararam realmente de se mexer, pois surgiu a possibilidade de ganhar a vida sentado", relata, referindo-se ao trabalho nos escritórios. "Hoje, é possível sobreviver sem fazer qualquer movimento. Some-se a isso a grande explosão da agricultura, que permitiu produzir muito alimento e estocar. No século passado, pela primeira vez passamos a ter comida farta para grandes massas populacionais", comentou.
Além da fartura, a humanidade desenvolveu a culinária, tornando os alimentos cada vez mais gostosos. "Seguramente, a dieta atual da classe média brasileira é melhor que a dos príncipes da Idade Média", comparou. O resultado deste desequilíbrio entre vida sedentária, excesso de alimentos e um cérebro que incentiva a acumular gordura no corpo aparece nas estatísticas sobre saúde. Metade dos brasileiros apresentam pressão alta aos 50 anos e 8% dos adultos têm diabetes. Além disso, 52% da população brasileira está acima do peso.
Por outro lado, a expectativa de vida do brasileiro aumenta a cada ano e, hoje, já é de 75 anos em média. "A única forma de evitar o envelhecimento é morrer cedo. Mas ninguém precisa envelhecer com doenças. Precisamos cuidar melhor do nosso corpo", avisou.

Corridas

Corredor de maratonas há 20 anos e autor do livro "Correr", lançado pela Companhia das Letras, Drauzio Varella relatou aos participantes do congresso que começou a praticar o esporte perto dos 50 anos, com o objetivo de viver um envelhecimento saudável. "O que dá condicionamento é o exercício aeróbico, seja ele andar, correr, pedalar ou subir escadas", ensinou, lembrando que, na vida moderna, quem não se movimenta tem que comer menos. "Comemos fora de casa e abusamos dos carboidratos. Quem se alimenta assim e tem predisposição genética vai engordar e pode ter doenças", disse. O médico também advertiu que controlar o ganho de peso quilo a quilo é mais fácil do que ganhar muito peso e depois perder.
Defensor da prática regular de exercícios, reconheceu que os mesmos nem sempre são prazerosos. "Não faz parte da natureza humana, nossos ancestrais economizavam energia ao invés de gastar. Quando colocamos o tênis para correr, cai sobre nossos ombros um peso de seis milhões de anos. Não fomos feitos para isso", comentou.
Por isso, ensinou que o exercício não deve nunca ser improvisado ou praticado "quando dá". "Eu mesmo acordo às 5 horas da manhã para correr, pois não tenho tempo em outro horário. Tenho um trato comigo mesmo. Até quando não estou me sentindo bem, só decido não sair para correr depois de levantar e me vestir para o exercício. Caso contrário, a chance de ficar na cama é grande", exemplificou.
Ele também desmistificou o prazer relatado pelas pessoas que dizem amar as atividades físicas. "Quando estou correndo, o primeiro quilômetro é horrível, depois disso libero endorfina e fica um pouco melhor. Mas a verdade é que exercício físico só fica bom na hora que acaba, quando experimentamos uma sensação agradável de bem-estar e dever cumprido."
Para quem pensa em começar a se exercitar, ele afirma que o primeiro passo é ter disciplina. E garante que o esforço vale a pena. "Nosso bem maior é o corpo, se não cuidamos, ele não funciona e aí começamos a ter doenças. O envelhecimento não precisa ser fonte de sofrimento", garantiu.

Estresse

Drauzio Varella observou que no mundo contemporâneo as pessoas são expostas a pequenos estresses que se acumulam, como os problemas familiares, de trânsito e de trabalho. "Nossos antepassados, por outro lado, viviam o estresse quando se deparavam com um predador, mas quando saíam com vida descarregavam o estresse logo depois."
O combate ao estresse também pode ocorrer com a prática de exercícios físicos. "É um jeito de mimetizar na vida moderna o encontro do homem das cavernas com o leão que o caçava. Atividade física é absolutamente fundamental para a saúde e além de tudo, nos traz otimismo."

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