PROJETO MAPEAR - Vítimas não se sentem exploradas
Como a maioria das vítimas de exploração sexual, L.K, uma transexual londrinense de apenas 16 anos, não se sente explorada. Atualmente, ela mora na casa da mãe e usa a internet para conseguir programas. Mas, no ano passado, quando ainda tinha 15 anos, passou uma temporada em São Paulo, onde foi morar com uma cafetina. "Vivi num AP com mais uma travesti. A gente morava de graça. Eu ganhava R$ 250 por programa. Ela (a cafetina) só pegava metade", afirma.
A jovem diz que ajuda a mãe a fazer faxina em casas de família, mas que a renda obtida com este trabalho não é suficiente. "Tenho necessidades e preciso fazer programas para viver", declara. Em comum com outras transexuais, ela sofreu violência dentro de casa, quando começou a se vestir como mulher. "Foi muito complicado. Meus tios me batiam. Apanhei muito. A única pessoa que me defendeu era minha avó", declara.
A transexual Melissa Campos, 38 anos, não chegou a apanhar em casa, mas sofreu abuso sexual de um parente (não eram os pais) desde os 5 anos de idade. A diferença em relação à L.K. é que Melissa só saiu para fazer a vida nas ruas aos 18 anos. "Quando eu me tornei maior, meu pai achou que havia acabado a responsabilidade dele e me convidou a sair de casa", conta.
Depois de ganhar dinheiro na Europa e comprar duas casas (uma para ela e outra para a mãe), voltou ao Brasil, e atua hoje como ativista dos direitos dos homossexuais, mantendo também um grupo de apoio a transexuais e profissionais do sexo. Melissa luta pela aprovação da Gabriela Leite (projeto de lei em tramitação do Congresso), como forma de coibir a exploração sexual de criança e adolescente. O projeto regulamenta a prostituição. "Se esse mercado, que é milionário no País, for regulamentado, ficará mais fácil combater a exploração", acredita.
O grupo de Melissa é parceiro do ViraVida. A pedagoga do projeto, Karla Corsini Pilla, diz que é muito comum as meninas não se sentirem exploradas como L.K. "São pessoas que já foram muito judiadas na vida. Não receberam assistência da família. Quando alguém paga uma conta de luz, um aluguel (em troca de sexo), elas acham que essa pessoa está ajudando", afirma.
Atualmente, o programa que é mantido pelo Serviço Social da Indústria (Sesi), conta com 76 alunas, de 15 a 21 anos, vítimas de abuso sexual ou exploração sexual comercial. "Nosso objetivo é dar oportunidade a elas de deixarem de se submeter a essa exploração", conta. O programa dura um ano e, além de atendimento social e psicológico, oferece capacitação profissional às jovens. (N.B.)





