Juliana Harumi Suzuki, professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e autora dos livros "Idealizações de Modernidade: Arquitetura dos Edifícios Verticais em Londrina 1949-1968" e "Artigas e Cascaldi: Arquitetura em Londrina", acredita que o poder público poderia ter se esforçado para tombar o conjunto Autolon-Ouro Verde por inteiro.

"Não custava ter tombado também o Autolon, porque ele fazia parte do conjunto e o potencial construtivo dele estava esgotado", argumenta. "Nós temos necessidade de uma política de preservação em Londrina. O problema é maior do que o das obras do Artigas. Já existe uma tentativa de fazer uma lei de preservação municipal. Primeiro, precisamos de uma reflexão da sociedade, e segundo, dessa legislação. Não podemos esperar o centenário da cidade para lamentar coisas que aconteceram", diz a professora.

Juliana cita que Londrina já perdeu imóveis de importância histórica: exemplares de arquitetura de madeira, casas de imigrantes japoneses, residências rurais, casarões da Avenida Higienópolis (como a famosa Casa dos Anões). Ela também lamenta situações que considera de abandono, como a degradação do Bosque e a falta de uma preocupação com o paisagismo do Lago Igapó.

"Mas vejo esforços do poder público, por exemplo, para não descaracterizar o Shangri-Lá, as vielas, o desenho do bairro, que contam uma parte importante da história de Londrina. Existe ali uma pressão imobiliária, de verticalização da região", afirma a professora. "Mas tudo diz respeito não a uma intervenção pontual nas obras, mas criar uma política de preservação." Juliana sugere que essa ação pode passar pelo resgate do jardim do complexo Autolon-Ouro Verde. "Existe o projeto, é possível refazê-lo", acredita.

Jairo Queiroz Pacheco, professor da pós-graduação em Patrimônio e História da UEL e autor do documentário "Das cinzas ao renascimento: Ouro Verde" (2012), que trata da história e da importância do cine teatro para a cidade, diz que a construção da loja no lugar do jardim entre o Ouro Verde e o Autolon representou "uma completa mutilação" do projeto original. Pacheco lembra que a arquitetura de Artigas sempre teve a qualidade de buscar a interação com o entorno: como exemplos dessa preocupação, cita o vão livre do prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) e as colunas inclinadas do próprio Ouro Verde.

"O Artigas concebeu o Ouro Verde e o Autolon como um conjunto. No meio, ele deixou um espaço que era meio como uma praça, um convite para as pessoas entrarem. Com o Calçadão (implantado em 1977), isso foi reforçado. Todos os projetos do Artigas tinham essa característica de não serem uma arquitetura de caixote, que delimita o entorno e tenta se isolar das pessoas. Quando se fechou o jardim, não foi possível sequer mais perceber que se tratava de um conjunto", lamenta.

Em abril de 2011, foi publicada a Lei Municipal Nº 11.188, que cria regras para a preservação do patrimônio cultural de Londrina. A matéria cria os processos de listagem de bens de interesse de preservação e de tombamento municipal, o conselho municipal e o fundo de preservação do patrimônio cultural londrinense. Entretanto, a lei ainda não foi regulamentada. Um decreto nesse sentido deve ser publicado dentro dos próximos dias.

Vanda de Moraes, diretora de Patrimônio Artístico e Histórico-Cultural da Secretaria Municipal de Cultura de Londrina, aponta que essa regulamentação vai impedir situações como a do conjunto Autolon-Ouro Verde. "Se existisse essa lei na época, a história teria sido outra", afirma. (F.G.)

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