Pensar o professor como pessoa, que também aprende, e a importância do seu papel na vida do alunos foram as principais questões levantadas pela psicopedagoga argentina Alicia Fernandez, que esteve em Londrina no último dia 23 para proferir palestra sobre as ''Diferentes modalidades de ensino e suas relações com a aprendizagem'', organizada pelo grupo OPA (Orientação, Partilha e Aconchego). Com vários livros publicados no Brasil, Alicia é hoje uma referência para psicólogos, pedagogos e psicopedagogos.
Em suas abordagens, ela procura estimular a inquietação como um motor para o processo de aprendizagem e diz que a vontade e o desejo de aprender é o que nos faz aprender de fato.
Antes de conceder entrevista à Folha, Alicia participou do programa Entrevista 107, na FM Universidade, onde afirmou ser cada vez mais importante a pessoa do professor e da professora, o contato pessoal e o vínculo criado com o aluno (que a psicopedagoga chama de aprendente). Ela citou a diferença da relação com a televisão, onde a criança não tem a possibilidade de intervir.
''Não sou contra os televisores, mas é importante que os professores não sejam televisores, e sim pessoas que possam escutar. O professor tem que saber mais escutar do que falar. E escutar se aprende.'' Ela faz uma diferenciação entre ouvir e escutar. ''Escutar significa introduzir sentido. Para significar alguma circunstância precisamos da inteligência, da afetividade, precisamos da ética. Para ouvir não precisamos da ética. Para escutar não se pode ser indiferente. A escuta permite não ficar indiferente à dor e à diversidade de situações.''
Para a psicopedagoga, quando escutamos, somos convidados a fazer alguma coisa, a intervir. ''E sabe como aprendemos a escutar? Sendo escutados.'' Alicia esclarece que escutar não significa aceitar nem concordar com tudo que se escuta, pois isso é justamente não escutar, ''como se fosse o movimento mecânico de um aparelho de gravação''.
A função mais difundida do professor, que é a de transmitir conhecimento, não é a mais importante, na opinião da psicopedagoga argentina. Ela ressalta a função do professor na construção do sujeito. ''Para mim, a função mais inportante do professor é a de construir espaços objetivos e subjetivos, onde os jovens e as crianças vão se constituindo como sujeitos humanos. Às vezes o professor é a única pessoa que encontrará em toda sua vida que pode escutá-los.''
Alicia observa que é fundamental que os ensinantes acreditem na capacidade de aprender dos aprendentes. Segundo ela, o processo ensinar/aprender não tem a ver com metodologia, mas com a crença de que o amanhã pode ser melhor do que hoje. ''Não podemos garantir que haverá trabalho no futuro, que não haverá guerra nem fome. Então é fundamental, mais do que nunca, que como adultos consigamos oferecer às crianças, adolescentes, alunos, um modo de enxergar que permita a eles se reconhecerem como sujeitos interessantes, com valor''.
Em suas palestras e entrevistas, Alicia Fernandez sempre cita o exemplo de um senhor que ela conheceu certa vez num hospital público de Buenos Aires, que escapou da morte como que por milagre. ''Ele chegou atropelado e foi para a UTI. Ninguém acreditava que sobrevivesse. Depois de alguns dias, fui novamente ao hospital e fiquei sabendo que o senhor havia saído da UTI. Perguntei de onde ele havia tirado forças para sobreviver'', conta a psicopedagoga.
Segundo ela, o senhor pensou um pouco e afirmou que enquanto estava na UTI se lembrou da sua terceira professora, a única que o olhou com confiança, acreditando que ele era capaz de aprender. Ele disse que se lembrou desta professora e que daí tirou forças para sobreviver.
O caso citado por Alicia ilustra a importância de uma atitude aparentemente simples por parte dos professores, mas importantíssima, que é o modo de olhar o aluno. ''Algo tão simples e tão profundo. E para isto não é preciso tempo extra, é algo que depende de como o professor se situa.''
A psicopedagoga acha que a maioria dos professores não tem consciência da sua importância na vida de uma criança. ''Este é um problema também da sociedade, que desqualifica os professores. Por exemplo o salário é muito pequeno diante da importância da sua tarefa na sociedade, uma das mais importantes, que vai formar o modo de pensar das pessoas e o modo de pensar-se a si mesmas.''
Ela continua dizendo que a sociedade precisa estabelecer espaços de escuta também para o professor, qualificá-lo. ''A pessoa que se desqualifica é muito perigosa quando trabalha com seres frágeis. O professor precisa ser escutado para reconhecer a importância de sua pessoa, muito mais do que a sua técnica'', conclui.

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