Os brasileiros vivem cada vez mais, porém continuam se aposentando jovens, muitas vezes antes mesmo de completar 60 anos. Esta tendência representa um risco para a Previdência Social, que pode atingir patamares de gastos perigosamente elevados para honrar o pagamento dos benefícios nas próximas décadas. Especialistas advertem que a aposentadoria precoce pode representar, também, risco de problemas futuros para os próprios aposentados.
Na ânsia de solucionar problemas financeiros imediatos, muita gente solicita o benefício antes de atingir o valor integral e continua trabalhando para viver com duas rendas. O problema é que, depois de uma certa idade, enquanto as despesas tendem a aumentar, a capacidade de trabalho diminui e o cidadão pode enfrentar dificuldades para manter o padrão de vida.
O economista Marcelo Caetano, especialista em previdência do Instituto de Pesquisa e Economia Aplicada (IPEA), revela que nos últimos dez anos não houve mudanças significativas na idade média de aposentadoria dos brasileiros. Por tempo de contribuição, os trabalhadores se aposentam em média com 54 anos e, por idade, aos 60 anos, conforme dados da edição de janeiro do Boletim Estatístico da Previdência Social. As mudanças mais significativas são na expectativa de vida ao nascer, que em dez anos passou de 71,58 anos para 75,14 anos.
"As pessoas se aposentam jovens diante da expectativa de vida. A previdência tem um déficit alto e, diante do envelhecimento da população, será preciso cortar gastos e tributar cada vez mais a sociedade", avalia, explicando que trabalhadores com maior nível de renda tendem a usufruir do benefício por tempo de contribuição. Já quem tem renda mais baixa e enfrenta dificuldades de inserção no mercado aposenta após atingir a idade mínima.
Caetano destaca que a legislação brasileira permite continuar trabalhando após aposentar. "Por isso, muitos trabalhadores escolhem permanecer no mercado de trabalho e a aposentadoria se transforma em complemento de renda", diz.
O problema é que, de acordo com os critérios do fator previdenciário – que leva em conta alíquota de contribuição, idade do trabalhador, tempo de contribuição à Previdência Social e expectativa de sobrevida do segurado - , quem se aposenta mais jovem pode ter uma renda menor. "Para quem não precisa do dinheiro imediatamente, compensa adiar até o limite da aposentadoria integral. Já se a pessoa está desempregada, não consegue se inserir no mercado ou precisa de dinheiro imediato, é uma solução."
O professor Sérgio Itamar, da área de finanças da ISAE/FGV em Curitiba, analisa que o governo está em um impasse diante da diferença entre idade média de aposentadoria e a crescente expectativa de vida da população. "Nos países desenvolvidos os trabalhadores se aposentam a partir dos 65 a 70 anos", compara. Se hoje já existe uma relação de quase um aposentado para cada contribuinte, o temor do governo, segundo ele, "é não aguentar pagar a conta". Por isso, o especialista defende mudanças nas regras para aposentadoria, como a proposta apresentada no ano passado que estabelece a soma de idade e tempo de contribuição como critério para conceder o benefício integral. Para os homens, a soma seria 95, e para as mulheres, 85. Na prática, significa que uma mulher de 60 anos com 25 anos de contribuição pode se aposentar integralmente, assim como um homem de 60 anos e 35 anos de contribuição.
"O brasileiro aposenta cedo porque a lei permite. Muita gente decide se aposentar por causa da competitividade do mercado ou pela dificuldade de se recolocar, mas acaba abrindo um negócio próprio para continuar a manter o padrão de vida. É preciso pensar que a aposentadoria terá que sustentar a pessoa para o resto da vida", pondera, lembrando que o avanço da idade costuma aumentar significativamente as despesas com saúde. "Além disso, muitos aposentados continuam ajudando financeiramente seus familiares", destaca.
Ele adverte que, com a economia em crise, o mercado de trabalho está em recessão, o que pode dificultar a recolocação do trabalhador. Além disso, o momento não é bom para investir em novos negócios. "Quem não precisa de dinheiro deve esperar para se aposentar integralmente. Recomendo também fazer uma simulação do valor do benefício para não levar um susto quando começar a receber", ensina.
Para quem pode, investir na previdência privada é sempre uma boa opção. "Em um momento de insegurança na economia e de discussão de novas regras para a previdência, aconselho a precaução."

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