Nicole (nome fictício), uma adolescente de 14 anos, mora na Zona Sul de Londrina e conheceu o "marido" em um grupo da rede social WhatsApp. Filha de uma mulher que engravidou pela primeira vez aos 15 anos e que, segundo a adolescente, sempre "desfez" das filhas, a menina viu no homem dez anos mais velho a oportunidade para sair de casa, viver com proteção e conquistar a sonhada liberdade. "Ele me convidou para ir a um show, eu aceitei e a gente começou a namorar. Não acho que ele seja velho", conta ela, com um sorriso infantil no rosto.
Estudante do sétimo ano, a menina contrariou a vontade da família e foi morar com o homem adulto antes mesmo de completar 15 anos. Antes dessa idade, também, passou pela experiência de ter relações sexuais, engravidar e vivenciar o trauma de um aborto. Foi durante o início da gravidez que ela saiu da escola. "Tinha que fazer exames e estava faltando muito. Mas gosto de estudar e pretendo voltar", espera.
A mãe, com quem a menina parou de conversar, acredita que os motivos do abandono das aulas sejam outros. "As pessoas me contam que ele (o marido) não deixa ela fazer nada, nem mesmo estudar. Tenho medo que seja vítima de violência", lamenta.
A história da mãe de Nicole envolve a primeira gravidez aos 15 anos, que resultou no nascimento de um bebê que morreu 5 minutos depois de vir ao mundo. "Eu não acreditava que estava grávida e não fiz nenhum exame pré-natal. Na hora do parto, o médico me perguntou se eu sabia que teria um filho", disse.
Nicole é a terceira filha desta mulher. A despeito do exemplo da mãe, que sempre advertiu as filhas sobre as dificuldades de ser mãe precoce, ela decidiu morar com um homem de 24 anos e garante que gosta da nova vida, que inclui realizar todos os serviços domésticos e viver uma rotina sem amigos da mesma idade. "Antes eu tinha amizades, ia na casa das pessoas. Agora saio com meu marido, viajo com minha sogra. Acho que está bom assim."
A menina não costuma pensar sobre o futuro, mas também não se enxerga fazendo serviços domésticos para o resto da vida. Se não voltar a estudar, entretanto, sabe que as oportunidades não serão generosas. "Penso em trabalhar e ter meu dinheiro, mas será difícil se eu não for à escola", diz.
O assistente social Adenilton Rosa de Oliveira, da instituição União Para a Vitória, que atende mães e crianças em situação de vulnerabilidade social no conjunto de bairros União da Vitória, lamenta que a realidade enfrentada por Nicole seja comum a outras meninas dos bairros periféricos da cidade. "Em casa são obrigadas a fazer serviços domésticos, cuidar dos irmãos mais novos, enfim, se comportarem como pequenas mães, e acham que o 'casamento' vai tirá-las desta situação e trazer liberdade. Quando vão morar com homens mais velhos, acabam reproduzindo este ciclo", relata.
Em geral, após a união, o "marido" passa a oprimir as adolescentes, proibindo que tenham amigas e até que frequentem a escola. "Eles têm medo de perdê-las caso entrem em contato com outras realidades", conta, destacando que as meninas, por sua vez, procuram nestes homens a figura paterna. "Quando encontram alguém que dá atenção, elas se agarram. É fruto da falta de carinho e cuidados", afirma.
Oliveira observa que as próprias famílias aceitam as uniões com naturalidade, como se o casamento fosse o único destino para essas garotas. "Precisamos discutir as questões de gênero com mais profundidade. É fundamental parar de educar as meninas apenas para serem mães e donas de casa", considera.

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