Sílvia Maia, psicóloga do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas 3), em Londrina, revela que o serviço atende atualmente 21 adolescentes vitimados pela exploração sexual comercial, mas acredita que os casos sejam subnotificados. Segunda ela, muitos começam a ser explorados por volta dos 12 anos, quando incia a adolescência. "O problema existe, é real e preocupa", garante.
Diferentemente de outros direitos dos adolescentes que são violados, este aparece pouco porque envolve vários tabus, inclusive a questão econômica. "Os adolescentes sabem que a atividade é sigilosa e não contam quase nada. Além disso, por haver dinheiro envolvido, sentem-se responsáveis, fica a ideia de consentimento. É complicado que se entendam como vítimas. Muitos chegam por outros motivos e acabam contando sobre a exploração", destaca.
Diante da experiência de atendimento destes casos, a psicóloga ressalta que a "escolha" de fazer ou não o programa é relativa, principalmente diante das oportunidades e perspectivas que são oferecidas a esse público. "Não são pessoas que escolhem entre fazer intercâmbio no Canadá ou se submeter à exploração sexual. A verdade é que o Brasil trata muito mal os jovens", opina.
Ela defende que os adolescentes são vistos como "ameaças" e, por isso, faltam iniciativas que ofereçam a esta população a possibilidade de fortalecer vínculos e traçar projetos de vida. "Quando a adolescente se submete à exploração sexual, não dá para dizer que foi uma escolha consciente, pois não foi dada a ela a oportunidade de estudar ou se profissionalizar", exemplifica, destacando que as escolas atuais são pouco interessantes e atrativas para essa faixa etária. "A percepção é que eles sentem um grande vazio existencial. Frente a isto, fazem qualquer coisa, inclusive o envolvimento com o tráfico e o uso de drogas ou a exploração sexual", analisa.
Sílvia explica, ainda, que os adolescentes se colocam em posição de objeto por questões mais sutis, que superam a simples necessidade. "Crianças e adolescentes são permeados ao lugar que lhes é determinado. Nestes casos, não são colocados no lugar de atores. Para alguns, a única possibilidade de existir é de maneira degradada. O trabalho do Creas visa suspender o ciclo de violência e contribuir para o protagonismo, para transformar este adolescente em sujeito, e não objeto."
Na avaliação dela, as políticas públicas existentes são frágeis e não acompanham as transformações da sociedade. "Falta oferecer a possibilidade de fazer planos, ter sonhos e vislumbrar algo para a própria vida. Há uma falta de perspectivas", acredita. A responsabilidade de resgatar os sonhos cabe a muitos envolvidos, incluindo escola, atendimento em saúde e cultura. "Este tipo de violência institucional é difícil de identificar e decorre da ausência do Estado", afirma.
(C.A.)

mockup