Após conquistarem direitos políticos, as mulheres vivem agora a fase de conquista de direitos sociais, como a luta por salários iguais, o fim da violência doméstica e a extinção do sexismo relacionado à imagem feminina, principalmente na mídia. Estas conquistas causam mudanças no imaginário das diferentes gerações.
Enquanto as mais antigas mantém a permanência de que objetivo final da mulher é casar, ser mãe e cuidar da família, as mulheres em torno dos 30 anos privilegiam a carreira e depois o casamento. "As gerações mais jovens, que participaram da revolução tecnológica e cresceram jogando videogame, vivem em um mundo diferente: mais rápido, ágil e competitivo", explica a doutora em História Rosana Schwartz, do Núcleo de Estudos de Gênero, Raça e Etnia da Universidade Mackenzie. Segundo ela, diante do contexto exposto, as meninas da chamada geração Z demonstram interesse maior em participar e interagir na sociedade do que nas esferas privadas, como é o casamento."Não é a finalidade última da vida delas".
As redes sociais são o ambiente natural para os debates. Elas se conectam, inclusive, através de coletivos femininos, como os organizados recentemente para combater os trotes machistas das universidades, que até então eram encarados como naturais. "Hoje, os sutiãs são queimados nas redes sociais", afirma, fazendo alusão a uma célebre ação feminista nos anos 60.
Pesquisas realizadas pelo Núcleo de Estudos do Mackenzie indicam que as atuais adolescentes e jovens não demonstram muito interesse em namorar. "O discurso é que não querem lidar com ciúmes e comportamentos possessivos. Elas querem mesmo jogar, ver filmes e se divertirem. Privilegiam trabalho e entretenimento ao invés de relacionamentos", expõe.
A época em que estas meninas vão se tornar adultas é chamada, conforme a professora, de hipermodernidade. "Valores anteriores estão sendo rapidamente questionados. Isso porque a geração Z é imediatista e quer mudanças rápidas", acrescenta. O exemplo do questionamento dos trotes nas universidades volta a ser citado. "As estudantes se constrangeram pelo comportamento sexista e denunciaram, sem vergonha ou medo de falar sobre assunto", diz.
Apesar das mudanças, Rosana acredita que a desconstrução do machismo será mais lenta. "É cultural e perpetuado pelas próprias mulheres em muitos casos, principalmente quando agem de forma competitiva com relação a outras mulheres. Outra questão a ser combatida é o sexismo atribuído à imagem feminina, principalmente pela mídia", defende.
Rosana lamenta que ainda exista uma parcela de meninas que não estão vivendo essa revolução, por situações como a maternidade precoce, por exemplo. "Falta o estado se apropriar das linguagens destas gerações, como as redes sociais, e intervir", observa.
Rui Fava, vice-presidente acadêmico da Kroton e autor do livro "Educação 3.0", que trata da educação adequada para as diferentes gerações, acredita que as mudanças do século 20 foram absorvidas de tal forma que a mulheres já conquistaram a igualdade. "Porém, novas conformações de preconceitos e violências continuam existindo", lamenta.
Ele lembra que, historicamente, a mulher ficou subordinada ao poder masculino, tendo basicamente a função da procriação, manutenção do lar e da educação dos filhos, numa época em que o valor era a força física. "Na revolução industrial a força física foi permutada por máquinas mecanizadas, mas ainda assim a mulher continuou em posição de inferioridade, sempre destinada a ser um apêndice do homem, jamais seu símile", critica.
Nos anos de 1990, com os avanços científicos e tecnológicos e o surgimento de uma "máquina inteligente" que substituiu o trabalho repetitivo, surge, conforme o professor, a possibilidade de outro espaço para a mulher. "Com a substituição do trabalho físico por máquinas mecanizadas e do trabalho repetitivo por computadores e robôs, restou ao homem o saber lidar com pessoas, saber pensar, saber sentir, ter empatia, ter atitude de agir muitas vezes intuitivamente. Para essa função, a mulher teve a oportunidade de ser treinada por mais de 200 anos. Talvez esteja aí a explicação da ascensão da mulher em cargos executivos superiores que antes eram ocupados somente por homens", afirma.
Fava destaca que a sabedoria em lidar com pessoas, a intuição aguçada e a inteligência emocional são pontos fortes destacados no temperamento feminino. "Os homens que se cuidem, pois as mulheres estão silenciosamente conquistando o poder que antes era destinado somente a eles."

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