O grande desejo da prostituta é que um homem a tire dessa vida. O ‘‘príncipe encantado’’ varia conforme o local de trabalho. Entre os travestis e prostitutas de beira de estrada, o cavalheiro dos sonhos é o caminhoneiro. Já para aquelas que atendem os marinheiros, um homem grego vai tirá-las da zona de prostituição. ‘‘Todo mundo fantasia de alguma maneira. Normalmente, esses sonhos estão ligados à realidade. Mas elas sonham com fatos raros, que podem até acontecer, como ganhar na loteria’’, avalia o psicanalista Victor Eduardo da Silva Bento, diretor do Centro de Toxicomanias da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Silva Bento diz que essas mulheres investem suas fantasias na sorte. Como jogadoras, elas querem que algum milagre as tire da situação em que vivem. ‘‘É difícil suportar e enfrentar a realidade da prostituição. Por isso, é mais fácil apostar na sorte que se confrontar com a vida’’, acrescenta.
De acordo com o professor, mulheres e travestis acabam se tornando objetos de consumo dos homens que frequentam as zonas de prostituição. ‘‘O problema é o grau de narcisismo de cada uma delas’’, afirma, explicando que é a forma como elas se olham e também vêem o mundo ao redor. Segundo ele, esse ponto de visão é desvirtuado em algumas pessoas, como os loucos.
Dentro dessa visão distorcida, estariam as fantasias que as prostitutas costumam contar. Algumas dizem que não precisam estar ali. Outras afirmam vir de famílias ricas e garantem gostar do que fazem.
Porém, Silva Bento também atribui parte do problema à mudança social. ‘‘Estamos vivendo um momento de extremo consumismo, em que é cada um por si.’’ Nessa questão de mercado, elas optam por ter dinheiro fácil para sobreviver. ‘‘E assim elas são um reflexo da sociedade’’, compara.
O psicanalista entende porque prostitutas e travestis se drogam. Os entorpecentes seriam um objeto utilitário para manter a fantasia em que vivem. ‘‘A vida já é uma droga. Por isso, elas utilizam drogas. Mas elas caem no mesmo círculo em que vivem, consumindo e sendo objeto de consumo.’’ Não é raro ver as jovens se drogando próximo às zonas de prostituição.
Para sair dessa vida, Silva Bento acredita em alguém que lhes forneça uma prova de amor no lugar do consumismo. Essa pessoa deverá ajudá-las no momento de ruptura entre o mundo da prostituição e a vida rotineira da sociedade. O ‘‘príncipe encantado’’ vai ter que ser firme para conduzir a garota de programa durante momentos de dor e também de alegria. (I.R.)

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