Nilsa de Brito, de 42 anos, e Zaqueo Vieira, de 60, são os outros dois indicados à edição 2013 do Prêmio Betinho – Atitude Cidadã. Em comum, eles possuem mais que o fato de presidirem as duas cooperativas de reciclagem responsáveis pela destinação correta dos resíduos em Londrina. São, acima de tudo, militantes da causa dos "catadores".
Muito religiosa, Nilsa viu na reciclagem a solução para levar adiante um projeto de solidariedade que começou meio por acaso, quando ela se mudou para o Jardim Leste-Oeste, em Londrina. Na época, trabalhava como empregada doméstica e começou a cozinhar um sopão para os moradores de rua que diariamente amanheciam dormindo na porta da casa dela. As bocas famintas por alimentos foram aumentando cada vez mais e Nilsa, desempregada e já vivendo da reciclagem, se viu sem condições de conseguir alimentos para todos.
Na época, sonhou com um montanha de lixo, mas não atinou que a solução para os problemas estaria naquela visão. Por isso, emprestou a chácara da voluntária Geni Matos e levou os moradores de rua para cultivarem os alimentos que em seguida seriam usados na sopa. "Era um trabalho de resgate da cidadania", conta.
A produção não era suficiente, então veio a ideia de alugar um barracão para que todos pudessem trabalhar com a reciclagem. Nascia a associação Panovi, que deu origem à atual Cooper-Oeste, presidida por Nilsa. "Recebemos uma grande doação de material reciclável. Foi aí que percebi ser possível viver daquilo", afirma.
Durante muito tempo, Nilsa e o filho Alex, com ajuda dos amigos Cida e Eder, puxavam carrinhos pela rua para recolher os materiais. Hoje a Cooper-Oeste agrega 189 catadores que trabalham em seis entrepostos em diversas regiões da cidade.
A presidente conta que é muito procurada por alcoólatras e usuários de drogas que não conseguem se manter no mercado de trabalho formal. Ela acolhe a todos e trabalha, com êxito, a reinserção dessas pessoas à sociedade. João Batista, o marido, e Alex, o filho - estudante de direito -, abraçaram o projeto e trabalham com ela na cooperativa. Ariadne, a mais nova, atua como secretária em uma rede de supermercados.
Ao falar sobre a indicação ao prêmio, os olhos enchem de lágrima pela recordação da trajetória sofrida. "Não esperava chegar onde estou, mas me sinto feliz por ter conseguido."

Desemprego
Zaqueo Vieira trabalhou por muito tempo na construção civil, no setor de energia elétrica e até mesmo construindo cercas na zona rural de Londrina e região. Em 1997, vítima do desemprego, começou a catar papel para sustentar a mãe e os dois filhos que ficaram com ele após a separação. "Catava de dia e de noite, para aproveitar a hora em que os prédios punham o lixo na rua", recorda.
A militância pela causa dos trabalhadores da reciclagem veio em 2000, quando foi eleito presidente da associação do Jardim Califórnia. "Legalizei a entidade e fiz o estatuto", conta. Convidado pela Companhia Municipal de Trânsito e Urbanismo (CMTU), assumiu a ARPA, que atuava na Gleba Palhano, onde ficou até ser novamente convidado a integrar a Cooper-Região, da qual é presidente. "Na época, reunimos o pessoal de 12 associações. Acabei eleito presidente e estou no segundo mandato, que termina este ano", comenta.
Os tempos de carrinhos puxados à mão ficaram para trás. "Hoje temos sete caminhões e trabalhamos com 250 pessoas que vivem da reciclagem. Além da renda média que passa dos R$ 1.000, oferecemos transporte e cesta básica para os cooperados", comemora.
Vieira lembra que os recicladores dependem da população para trabalharem e sobreviveram. "Como a prefeitura não está cedendo a sacaria verde para distribuir nas residências, a população reclama e separa menos material. Também temos dificuldades para encontrar barracões para alugar, o que impede de aumentarmos o número de trabalhadores."
Indagado sobre o impacto de receber a indicação ao prêmio, ele conta que ficou "pensativo". "Por que um simples catador de papel? Fiquei sem entender, mas depois senti que é porque as pessoas confiam em mim", disse. O presidente afirma que, hoje, não se vê em outro trabalho. "Amo o que eu faço e não quero outra profissão. Vou continuar defendendo os catadores." (C.A.)

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