Preocupação - Os ecos do ebola do outro lado do mundo
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domingo, 26 de outubro de 2014
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
O Brasil não teve até agora nenhum caso confirmado de ebola, mas desde o dia 9 deste mês, quando o africano Souleymane Bah, de 47 anos, originário da Guiné, se apresentou com os sintomas em uma Unidade de Pronto Atendimento em Cascavel, um temor generalizado tomou conta da população. O resultado tem sido maus exemplos de discriminação de imigrantes pipocando pelo País, pelo simples fato de serem negros, além de frequentes novos casos noticiados como suspeitos, com base em sintomas como febre e diarreia. De diferentes formas, o pesadelo vivido por moradores da Libéria, Serra Leoa e Guiné - países que concentram a epidemia - está refletindo-se a milhares de léguas de distância.
Recentemente em Londrina um jovem universitário guineano, durante a solenidade de formatura, passou pela indesejável situação de ver uma outra formanda recusar-se a lhe dar a mão, embora ele estivesse há quatro anos morando longe de seu país. Na última quinta-feira o show que o músico americano Sugaray Rayford faria na cidade foi cancelado, e em seu lugar veio outro norte-americano, Donny Nichilo. Motivo: Rayford voltou recentemente de um cruzeiro na costa do México e, ao desembarcar, teve febre. Foi o suficiente para as autoridades de saúde do sul dos Estados Unidos colocá-lo em observação e o impedirem de viajar, como medida preventiva, prejudicando toda a agenda de shows. "Lá os cuidados têm sido extremos", afirma o agente do músico, Igor Prado.
A cabeleireira africana Neyde Jordão, que vive em Londrina há 10 anos, tem passagem comprada para visitar a família em São Tomé e Príncipe logo depois do Natal, e sua mãe já está preocupada. "Houve um caso diagnosticado em Cabo Verde e meu voo passa por lá, daí a preocupação dela. Mas como minha passagem por aquele país é rápida, acho que não haverá risco", argumenta a cabeleireira. Segundo Neyde, embora não faça fronteira terrestre com os três países atualmente mais atingidos pela doença (São Tomé e Príncipe é uma ilha), as autoridades locais têm tomado medidas bastante cautelosas para evitar a entrada do vírus, como a suspensão dos voos para os países com vítimas. "Temos uma população de apenas 165 mil habitantes. Uma epidemia dessas causaria a morte de todo mundo."
A coordenadora da Cáritas Arquidiocesana de Londrina e vice-coordenadora da Pastoral do Migrante no Paraná, Márcia Ponce, afirma que a região não recebeu recentemente trabalhadores dos países com a epidemia, mas ainda assim exemplos de preconceito têm sido comuns. "Outro dia, no PAI (Pronto-Atendimento Infantil), vi que as pessoas evitaram se sentar perto de uma família de haitianos, simplesmente por causa da cor de sua pele."
Sem pânico
De acordo com o Ministério da Saúde, até agora apenas o caso de Cascavel foi caracterizado como suspeito de ebola e o risco de transmissão para o País é considerado baixo, por isso não há motivos para pânico. O órgão informa, porém, que dispõe de um Plano de Preparação e Resposta para Emergências de Saúde Pública, que vem sendo utilizado no momento. Além disso, foi ativado o Centro de Operações de Emergências em Saúde em nível máximo, para acompanhar a situação epidemiológica do ebola.
Por enquanto não há previsão de realização de triagens de viajantes nos aeroportos internacionais do Brasil, por ser considerada uma estratégia pouco eficiente. Um dos argumentos utilizados pelo Ministério da Saúde é que experiências anteriores, como no surto de H1N1, mostraram que os viajantes desembarcam em outro país geralmente no período de incubação do vírus, por isso as medidas de identificação da doença não têm eficácia comprovada.
Mas duas simulações de como agir em casos suspeitos já foram feitas no Aeroporto Internacional do Galeão e no Instituto de Infectologia Evandro Chagas da Fiocruz, no Rio de Janeiro, e no Aeroporto de Guarulhos e Hospital Emílio Ribas, em São Paulo. Mesmo com o baixo risco de transmissão da doença, foram fortalecidas as ações de vigilância e os serviços de saúde estão em alerta para identificação de possíveis casos suspeitos de ebola no País.
A pesquisadora da Unicamp e primeira secretária da Sociedade Brasileira de Infectologia, médica Mônica Jacques de Moraes, avalia que o sistema de vigilância epidemiológica funciona bem no Brasil. "Às vezes somos até acusados de exagero, mas a mobilização é necessária, principalmente no caso do ebola, por ser um vírus de fácil transmissão e alta letalidade. Além disso, somos um país muito grande e heterogêneo, o que nos impõe algumas dificuldades. Não há outra forma de lidarmos com o assunto senão com um plano muito cauteloso", argumenta a infectologista, para quem as estratégias do governo vêm sendo aperfeiçoadas nos últimos meses e é bastante improvável que tenhamos no País um surto do ebola.


