Prejuízo ambiental é esquecido
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de abril de 2001
De Curitiba 
Folha Na avaliação dos senhores, porquê tantos acidentes? O que está acontecendo no Paraná?
Rubens Novicki No conjunto dos acidentes, dois se destacaram por suas condições anormais. O primeiro, na refinaria (Repar), foi causado por falha humana. O segundo foi o rompimento do oleoduto na Serra do Mar. O processo investigatório está em andamento, mas tudo indica que a causa foi a movimentação de terra que, por tração, levou ao rompimento do oleoduto. Dos dois grandes acidentes, um foi causado por falha humana e outro pela natureza. Nenhum foi causado por deterioração ou má condição dos equipamentos. Houve outros casos de derramentos pequenos, que no passado não tinham destaque da imprensa. O que aconteceu foi que a Petrobras se envolveu em quatro fortes acidentes nos últimos tempos, da Baía da Guanabara, dois aqui no Paraná e o afundamento da plataforma. Só que não dá para esquecer que a Petrobras atende 98% do mercado nacional. Ou seja, qualquer coisa ligada a óleo tem vínculo com a Petrobras: ou ela está comprando, vendendo ou transportando.
Folha Quer dizer que antes os acidentes aconteciam, mas só depois destes acontecimentos maiores é que a imprensa passou a cobrí-los?
Novicki Com os acidentes grandes, a sociedade ficou mais alerta a este tipo de coisa e passou a enxergar todo e qualquer resquício de óleo como importante. Estes acidentes tiveram um papel educativo, a sociedade se alertou para os impactos ao meio ambiente.
Ana Cecília Nowack Os acidentes também são inerentes às atividades industriais, que estão se intensificando no Estado, aumentando também os riscos. Mas o caso da Repar, com certeza, estabeleceu um marco. Ele despertou a sociedade mostrando que acidentes ocorrem, que os danos existem e não agradam. Ninguém quer ver símbolos do Estado, como o Rio Iguaçu e a Serra do Mar, agredidos.
José Álvaro Carneiro Além da correlação com o aumento da atividade econômica e a idade dos equipamentos, houve um período em que a Petrobras esteve muito voltada para busca de resultados. E, às vezes, este enfoque pode fazer com que investimentos nos processos de manutenção sejam um pouco menores em termos de exigência do que o normal. Aí você cria cenário de possibilidades de acontecimentos de acidentes.
Folha Os acidentes serviram também para alertar as empresas e órgãos públicos para se prepararem melhor?
Ana Cecília Sem dúvida. O Estado tinha um certo aparato, mas a partir destes acidentes viu que é preciso intensificar a atuação. O primeiro passo será criar, junto com a Petrobras e ONGs, um Programa de Gerenciamento de Riscos, a ser usado em empreendimentos do Estado. Fala-se muito em plano de contingência, mas é preciso pensar em evitar os acidentes.
Folha Apesar de falar em aprendizado, os órgãos cometeram o mesmo erro recentemente. Desde fevereiro, quando o oleoduto que liga a Repar ao Porto de Paranaguá foi interditado, era previsível um aumento no movimento de caminhões carregados com óleos e combustíveis. Mesmo assim, ninguém pensou em aumentar a segurança na rodovia. Foi preciso acontecer um novo acidente, que derramou mais óleo nos rios da Serra do Mar, para que se pensasse em medidas preventivas. Afinal, os acidentes estão ou não ensinando?
Ana Cecília Acho que acaba-se aprendendo sim. A Ecovia, por exemplo, apresentou um plano de contingência, que não foi considerado satisfatório pelo IAP e Defesa Civil, porque ele praticamente passava toda atribuição para a Defesa Civil, o que não é correto. Os empreendedores têm que estar preparados para atender um acidente. Mas a Ecovia não estava preparada em nenhum dos dois casos. Agora já estamos exigindo dela uma série de medidas de prevenção, como a fiscalização de caminhões, orientação aos motoristas nos pedágios.
Folha E a Repar também tem plano de contingência?
Ana Cecília Tem, foi apresentado ao IAP e está em processo de discussão para renovação da licença da refinaria. E o programa de Gerenciamento de Riscos vai ser uma exigência nossa para renovar a licença para operação da refinaria.
Novicki A Repar tem plano de contingência para todas as hipóteses acidentais que são levantadas internamente. A refinaria está preparada, por exemplo, para atender um incêndio em um tanque, com recursos e pessoal treinado. E nós temos atuado em todos acidentes com óleo, mesmo que não seja nossa atribuição. Nós temos aprendido com isso.
Folha Em recursos financeiros, o que a Petrobras está investindo?
Novicki No caso dos CDAs (leia matéria nesta página), eles foram feitos após licitação internacional, pela multinacional Alpina Brigs. O contrato de manutenção dos nove centros por seis anos é de US$ 160 milhões. Cada unidade custou US$ 19 milhões, sendo US$ 2 milhões em equipamentos, e as despesas mensais de cada unidade é de US$ 100 mil.
Folha No primeiro acidente, questionou-se muito se a Petrobras tinha know-how e até equipamentos suficientes para atender com competência. Uma das críticas era que o óleo tinha avançado muito porque a empresa não estava sabendo contê-lo.
Novicki No caso da refinaria, nós trabalhávamos com uma hipótese acidental, existia um plano de contingência, a gente sabia colocar as barreiras no rio, tinha até ponto fixo para isto. No mês do acidente tínhamos treinado a equipe, coincidentemente a mesma que estava trabalhando no dia do acidente. Só que nossa hipótese previa um vazamento de até 70 mil litros, não pensávamos que um duto, naquela condição, partiria e ficaria duas horas vazando.
Ana Cecília Essa é uma das falhas que a gente aponta nos planos de contingência da Petrobras. O acidente como do Iguaçu não foi inédito a nível mundial, e uma situação dessas deveria fazer parte de um cenário da refinaria. Infelizmente, teve que acontecer um acidente para ela rever o cenário.
Folha Como é que os ambientalistas estão vendo isso tudo?
José Álvaro Recentemente, descobri que a Petrobras não faz parte da Ipieca, por exemplo, uma Associação Interna da Indústria do Petróleo para Ambiente e Conservação, cujo objetivo é divulgar informações sobre derrame de petróleo e capacidade de respostas, mudanças climáticas globais, qualidade na área urbana e biodiversidade. É uma pena, porque a Ipieca tem um guia para exercício de derrame de petróleo, com recomendações sobre o que fazer, baseadas em estudos de caso. Quando aconteceu o vazamento no Iguaçu, que inaugurou nossa série, uma das coisas que senti foi a falta de conhecimento das pessoas da Petrobras e do IAP quanto ao ambiente de ocorrência do vazamento. Não tinha um mínimo de mapeamento, quando num bom plano de emergência o cenário tem que ser exaustivamente definido.
Folha Mas você acha que estes acidentes poderiam ser evitados?
José Alvaro Não, porque a indústria de petróleo tem uma característica muito clara, de que é mais barato melhorar planos de contingência do que investir em manutenção.
Folha Como é essa relação planos de emergência e programas de prevenção na Petrobras?
Novicki Seria uma política suicida pensar só nas emergências. A indústria investe na prevenção. O problema é que em nossa atividade não dá para pensar em risco zero. Por isso, é preciso admitir planos de contingência.
Folha Vocês falaram da necessidade de ter mão-de-obra qualificada com treinamento prático e teórico. Os sindicatos alegam que uma das causas dos acidentes é a terceirização na empresa, com contratação de pessoas que não conhecem as atividades.
Novicki Aqui no Paraná, os dois casos não foram com funcionários terceirizados. Eram pessoas treinadas, que sabiam os procedimentos. No caso da Repar, o cabo ficou vazando por duas horas quando havia um computador na refinaria, mas ninguém checou. Como aconteceu com os bancos, as indústrias de petróleo também se automatizaram e o quadro de pessoal reduzido. Hoje a Repar tem 570 empregados contratados e mais 200 terceirizados.
Folha E o que dá para fazer em prevenção?
Novicki Se pusermos os mesmos padrões de segurança da indústria aérea nas empresas de petróleo, 30% não operariam mais em função dos altos custos.
Ana Cecília Por isso que o programa de Gerenciamento de Riscos do IAP quer rever os planos de Emergência e contingência através dos riscos, traçando as atividades de risco para gerenciar depois. O governo do Estado também está exigindo que a Petrobras implante um CDA no Paraná.
Folha E como é que ficam os danos para o meio ambiente? Alguns são irreversíveis?
Ana Cecília Os diagnósticos apontam que danos não são irreversíveis, mas eles ainda não estão concluídos. Eles ainda podem apontar casos irreversíveis, que venham exigir medidas compensatórias.


