Aos olhos estupefatos dos curitibanos naquele final de ano de 1954, o governador Bento Munhoz da Rocha Netto tinha se excedido no delírio de grandeza: a Biblioteca Pública do Paraná que ele acabara de inaugurar era imensa, muito maior do que a cidade poderia comportar. Quarenta anos depois, a realidade é outra –seus 8.258 metros quadrados parecem ter encolhido à medida que se multiplicou o volume de obras. São mais de 160 mil títulos, o que representa algo em torno de 350 mil exemplares.
Faltam estatísticas que mostrem em termos quantitativos os livros que ali dormem em berço esplêndido, mas sabe-se de antemão que é a maioria. Somando-se esses esquecidos –ou desconhecidos– pelos leitores, com certeza resultariam em prateleiras atulhadas, porém sem uso. Com o espaço físico totalmente tomado, a BPP conseguiu uma sala no porão do prédio da TV Educativa, transformada em depósito técnico. Imediatamente ficou lotada com o volume excedente.
‘‘Passamos para lá o que seria a nossa reserva técnica. São obras pouco consultadas, mas importantes, como os clássicos da literatura’’, explica a diretora, Marilena Millarch. Parte desses volumes são duplicatas. Quando uma obra solicitada não se encontra na biblioteca, um funcionário dirige-se até a reserva e traz para o associado. ‘‘Como temos tudo catalogado, sabemos quando o livro não está na biblioteca e está no depósito’’, diz Marilena. ‘‘Alguns que estão mais conservados ficam lá e as duplicatas permanecem aqui.’’
O romance, as obras de cultura geral e mesmo as didáticas formam o trio de gêneros mais procurados na biblioteca. Diariamente passam pela biblioteca cerca de 3 mil usuários. Nas férias, o movimento cai pela metade. O perfil dos frequentadores é o mais abrangente possível, mas a predominância é de estudantes. Trabalham ali cerca de 200 funcionários, espalhados pelos mais variados setores, desde o atendimento ao público à seleção dos lotes remetidos ao Interior, recuperação dos volumes gastos pelo manuseio ou prejudicados por ações de vandalismo.
No vaivém da maior biblioteca do Estado, mesmo com homens da segurança e a instalação de sistemas eletrônicos de vigilância, ainda assim os transgressores fazem das suas. Mensalmente, desce para o setor de restauro uma média de 500 livros, pelo uso contínuo ou pela agressão dos vândalos. Marilena comenta que o livro produzido no Brasil ‘‘não é feito para durar’’. Às vezes, bastam três ou quatro empréstimos para que ele volte ‘‘necessitando ir para o hospital.’’ (Z.C.L.)

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