Preconceito institucional é o que provoca mais danos
As características das famílias que são vítimas, todos os anos, das repetitivas tragédias causadas por enchentes e outras intempéries são um sinal do racismo institucional que impera no País. A afirmação é da procuradora federal Dora Lúcia Lima Bertúlio, militante do movimento negro e ex-procuradora-geral da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Em sua gestão a instituição implementou o Programa de Cotas Raciais, a partir de 2004. Atualmente ela atua como procuradora do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em Curitiba.
Basta olhar para estas famílias. Todos sabem que as tragédias vão acontecer, mas nada se faz. E isso acontece não simplesmente porque são famílias pobres, mas também porque são negras em sua grande maioria. Há uma desconsideração de políticas para essa população. Isso é racismo institucional, que é o que mais danos provoca no inconsciente das pessoas, afirma Dora.
Pioneira no estudo da influência do sistema jurídico na perpetuação do racismo no Brasil, Dora argumenta que embora o País tenha registrado alguns avanços mais qualitativos do que quantitativos , ainda mantém um discurso que tenta diminuir os conflitos raciais. Com isso naturaliza-se a relação conflituosa, dificultando qualquer proposição mais impactante para diminuir o preconceito. As diferenças entre brancos e negros, segundo ela, continuam sendo muito grandes, apesar de todas as notícias de diminuição da pobreza e ascensão social das classes de menor poder econômico. Este fenômeno acontece de forma diferente para brancos e negros. As desigualdades sociais são absolutamente marcadas pela desigualdade racial. Há um caminho muito longo ainda até chegarmos a um país com democracia racial de fato.
Mas mesmo considerando o Brasil um país preconceituoso, Dora Bertúlio acredita que alguns avanços foram feitos nos últimos anos, graças a iniciativas como os sistemas de cotas raciais implantados nas universidades públicas. Hoje há uma discussão mais aberta na sociedade sobre o assunto e as famílias negras sentem-se com mais condições de ser contempladas pelas oportunidades existentes e, portanto, têm mais expectativas. O racismo tira o sonho das pessoas, e quando elas se veem diante da possibilidade de ser alguém, ganham forças e têm sua autoestima melhorada. (S.L.)





