Preconceito atravessa séculos
A Lei Áurea, assinada em 13 de maio de 1888 (século 19), libertou apenas 5,6% dos negros escravizados no Brasil, sem definir uma legislação que reparasse as crueldades cometidas pelo sistema escravagista. Mesmo assim, a data faz parte do calendário nacional e é comemorada pelos brasileiros.
Tem sido assim há 123 anos. Porém, com a criação da lei que transformou o preconceito racial em crime, o Dia da Abolição dos Escravos recebeu mais uma razão para motivar denúncias, protestos ou para sugerir medidas de impacto, como a adotada por Altino Pereira, um aposentado que colocou um tapume de madeira em frente de sua casa, em Foz do Iguaçu, com objetivo de evitar atritos como os vizinhos.
Quem passa pela Rua Linhares, no Jardim Santa Rosa, fica no mínimo intrigado ao ver os compensados em frente ao número 250 do bairro de classe média. São 2,3 metros de altura e 15 metros de largura de madeira que escondem por completo a casa onde Pereira reside há 20 anos com a esposa Maria Elli Beier Pereira, uma alemã de olhos azuis e a filha Mirtes Beier Pereira, de 15 anos.
O tapume foi colocado após os problemas no convívio com parte das moradoras da Rua Linhares. Elas acusam Pereira, de 78 anos, de ter cometido atentado ao pudor em várias ocasiões. O aposentado nega, afirmando ser vítima de perseguição e discriminação por ser negro. O caso foi parar no Juizado Especial Criminal e teve como resultado um termo de compromisso no qual Pereira foi proibido de incomodar seus vizinhos nos próximos dois anos. Junto com o processo está um abaixo-assinado a favor do aposentado, com 93 assinaturas.
Ex-combatente da Segunda Guerra, o aposentado diz que a decisão judicial o incentivou a dar um ponto final na polêmica. Já que falaram que ficava mostrando o pênis, o que é mentira, resolvi me isolar. Agora eu não vejo as vizinhas e elas não me enxergam. Quero que me esqueçam, pondera, numa fala firme e lúcida.
Questionado se o único motivo para acusação de falta de pudor é por ser negro, Pereira esclarece ter incontinência urinária. Num determinado dia ele teria entrado na residência segurando o pênis, o que causou uma interpretação equivocada das vizinhas, esclarece.
A esposa reforça a defesa ao dizer que o marido é alvo de insultos porque é casado com uma branca. Eles consideram isso anormal. Que culpa ele tem de ser negro e eu branca, questiona a mulher.
Independente do mérito da causa, o aposentado vai morar atrás do tapume, cuja visão para a Rua Linhares são os buracos destinados às correspondências e à leitura do relógio de energia elétrica e água. Antes eu só queria vingança. Mas hoje quero paz, finaliza Pereira, gosta de ser chamado pelo apelido, Tatu.





