"Diga não ao racismo", pediu a campanha da Fifa no dia do jogo entre Brasil e Colômbia pela Copa do Mundo. Nesse dia, além de faixas espalhadas pelo estádio pedindo o fim da discriminação contra os atletas negros, os capitães dos dois times leram, em português e espanhol, um pequeno discurso valorizando a igualdade. O apelo não foi suficiente. Logo após o fim do embate que resultou em uma lesão no brasileiro Neymar, a torcida nacional invadiu as redes sociais para atacar, com acusações ofensivas de conteúdo racista, o colombiano Zuñiga, responsável pelo lance que acabou tirando o craque brasileiro da Copa. "Macaco", "preto desgraçado", "monstro" e "assassino" foram alguns dos xingamentos captados na internet e que não pouparam sequer a família do atleta, que assistiu à filha pequena ser verbalmente agredida pela rede social Instagram.
A lamentável reação dos brasileiros expõe uma ferida que assola o futebol mundial: o racismo da torcida e também de alguns jogadores e dirigentes de clubes. Recentemente, o brasileiro Daniel Alves, que atua no Barcelona, na Espanha, ficou sob os holofotes da mídia após comer uma banana atirada em campo pela torcida do time adversário.
O problema ronda também as disputas locais. Na final do último Campeonato Paranaense, o apresentador Lourival Santos, da Rede Massa, chegou a ser detido pela polícia após proferir ofensas racistas contra o jogador Maicon, autor do gol do Londrina contra o Maringá. Já o zagueiro Danilo, que atuava pelo Palmeiras, foi condenado pela 18ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo pela prática do crime de injúria qualificada contra o zagueiro Manoel, à época no Atlético (PR). A confusão ocorreu em 2010, em jogo pela Copa do Brasil, quando Danilo cuspiu em Manoel e o xingou de macaco. Contrariando o comportamento mais comum entre os jogadores, o atleta que defendia o time paranaense fez denúncia em uma delegacia de polícia acusando o oponente de racismo.
A procuradora federal Dora Lúcia de Lima Bertúlio, chefe da procuradoria da Fundação Cultural Palmares, esclarece que a grande presença de atletas negros nas categorias de elite do futebol mundial explica a reação racista dos torcedores. "O futebol não é mais um esporte 'simplório'. Os jogadores dos grandes clubes alcançam excelência econômica e muito prestígio, o que acaba irritando os racistas que acreditam que os negros devam ser subalternos aos brancos", diz.
Além disso, ela ressalta que o futebol, ao contrário de esportes que exigem estrutura sofisticada de treinamento, como por exemplo a natação, acaba oferecendo espaço aos negros, historicamente discriminados pela falta de oportunidades. "Quando os negros se destacam, são avaliados pela negritude, e não pelo talento, o que é muito triste, pois a cor da pele é algo que não dá para mudar. Neste sentido, o racismo é destruidor", reforça.
Ela aponta que o preconceito contra a população negra está presente em outras esferas dos campeonatos de futebol. "Os comentaristas, por exemplo, avaliam boas jogadas dos times com maioria negra como lances de 'sorte'. Já as jogadas ruins são sempre classificadas como incompetência. Nunca levam em conta a técnica", critica.
Chama atenção, ainda para a quase inexistência de crianças negras entre os meninos e meninas que entraram com os jogadores das seleções que disputaram a Copa que termina hoje. "Qual a imagem passada para as crianças negras? Que elas não são merecedoras de pegar na mão dos jogadores?", questiona.
A especialista adverte que o racismo leva os jogadores negros a relevarem as agressões ao invés de denunciá-las. "Ser visto como negro é um tabu. Preferem ser invisíveis do que assumirem a negritude. É uma reação do medo de sofrer maiores consequências", explica, lembrando que as denúncias são importantes porque levam os agressores a sofrerem punições. "O medo de ser punido acaba inibindo ações racistas", acredita.

LEIA MAIS

Jogadores relatam sentimento de humilhação

mockup