Um triste som assola os ouvidos dos jogadores brasileiros negros que escolhem atuar na Europa. Emanado das arquibancadas, o som que imita os guinchos de macacos é comumente usado por torcidas adversárias para desestruturar os atletas em campo. O jogador Vinícius de Oliveira Fabrão, de 25 anos, atuou seis anos no Leste Europeu e não se acostumou com as ofensas racistas da torcida. "O sentimento é de humilhação, pois não criticam a atuação do jogador, criticam a cor da pele. Eu sempre me impus com relação a comportamentos racistas. Com o tempo, passei a não me sentir mais humilhado", contou.
O pior episódio sofrido pelo atleta foi em um clube da Romênia. Durante o treinamento, após errar um movimento, o técnico gritou que não aguentava mais o jogador e o chamou de macaco. "Joguei o colete no chão e saí do campo porque considerei o comportamento muito absurdo. Depois o treinador veio me pedir desculpas. Eu respondi que aquilo não se fazia e que ele tem de respeitar a todos. Depois deste fato, passei a ser admirado. Não podia aceitar a agressão, para não virar rotina", explica.
Fabrão avalia que, no Leste Europeu, pela pouca presença de negros, não há preocupação dos clubes em combater o racismo, como acredita ocorrer no Brasil. "Eles precisam evoluir muito neste sentido", defende, acrescentando que campanhas como a da Fifa, que levou a discussão sobre o racismo para dentro dos campos da Copa do Mundo, são muito importantes para fazer o problema chegar a ser discutido pelas federações europeias.
Pela própria experiência, ele lamentou as agressões proferidas contra o colombiano Zuñiga nas redes sociais. "Não sei qual foi a intenção dele, mas o futebol é um esporte de contato, as lesões fazem parte do jogo. O que não pode ser aceito dentro e fora dos campos é o racismo", disse.
Celso Luís Honorato Júnior, o Celsinho, que hoje defende o Londrina e acumula experiência em clubes da Europa, revelou ter sido vítima de racismo onde menos esperava. Em campo pelo Sporting, de Portugal, ele ouviu algumas vezes o tal guincho de macacos saindo das arquibancadas. "É uma situação muito constrangedora porque não se trata de crítica, é um julgamento pela cor da pele. Fiquei muito surpreso, porque em Portugal há muitos negros", disse.
Quando foi para a Europa, o primeiro destino foi a Rússia, conhecida pelo comportamento extremamente racista da população. "Me preparei para lidar com o preconceito, mas o clube acabou criando um 'escudo' para me proteger. Além disso, tive um intérprete que me ajudou muito a entender o comportamento dos russos. Talvez, por isso não tenha tido nenhuma experiência ruim", declarou.
Ele contou que os russos demonstravam muita curiosidade pela pele negra, que não é nada comum na região. "Queriam me tocar, mexer no cabelo, mas não eram ofensivos. Uma das minhas melhores experiências como jogador foi na Rússia." (C.A.)

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