Estatísticas imprecisas sobre o número de casos, resistência de familiares e amigos das vítimas do suicídio em falar sobre o assunto e até mesmo o silêncio da mídia indicam que o tema é um tabu na sociedade contemporânea. Considerado um problema de saúde pública, cuja ocorrência parece aumentar principalmente entre os jovens, o suicídio tem fatores de risco conhecidos e, conforme a médica psiquiatra Alexandrina Meleiro, coordenadora da Comissão de Estudo e Prevenção de Suicídio da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), é uma morte possível de ser evitada.
Quem lida diretamente com o assunto garante que o melhor jeito de prevenir o ato de desespero que leva as pessoas a tirarem a própria vida é abrir canais para falar sobre o tema. Por isso, através da denominação "Setembro Amarelo", este é considerado o mês mundial de prevenção ao suicídio, um movimento estimulado mundialmente pela Associação Internacional pela Prevenção do Suicídio e que, no Brasil, tem apoio do Centro de Valorização da Vida (CVV).
Falar abertamente, ao contrário do que pensa o senso comum, não incentiva ninguém a ter ideias suicidas. "Se não vencemos o estigma, a pessoa que pensa em se suicidar não tem acesso a falar sobre o que a aflige. Já quando há conversa, ela se sente aliviada de partilhar a angústia", afirma Alexandrina, lembrando que a escuta tem que ser acolhedora e compreensiva, livre de julgamentos.
Segundo ela, 80% das pessoas que se mataram tinham dado algum aviso que, na época, não foi percebido. Os sinais podem ser desde comentários de que não vale mais a pena viver, até ações práticas como arrumar documentos, rituais de despedida, baixo rendimento no trabalho ou na escola, comportamento "fechado".
Por ser uma morte evitável, a prevenção depende também da identificação dos fatores de risco. "Todas as pessoas que se suicidaram tinham alguma doença psiquiátrica, isso é um fato comprovado no mundo. Ter a doença, porém, é uma condição necessária, mas não suficiente. Nem todo mundo que tem a doença vai tentar o suicídio", explica.
Dentre as patologias psiquiátricas, o transtorno de humor oferece mais riscos, pela bipolaridade, mas principalmente a depressão. Segundo Alexandrina, a depressão chega a ser responsável por 34% das mortes por suicídio no mundo, seguida por dependência e abuso de álcool e outras drogas, que responde por 24,7%. Transtornos psicóticos, como esquizofrenia, respondem por 10%, e os transtornos de personalidade, por outros 10%. "Se uma pessoa tem depressão e faz uso de álcool ou outras drogas, ela aumenta a possibilidade de cometer o suicídio", alerta.
Outro fator de risco é a idade. Pesquisas indicam que, em idosos com mais de 65 anos, para cada quatro tentativas um deles consegue se suicidar, enquanto no jovem a relação é de cem tentativas para um êxito. "O idoso tem depressão porque se sente um peso para a família, é um grupo com alta incidência. Mas a grande preocupação da Organização Mundial de Saúde (OMS) é o aumento dos suicídios na população jovem", destaca.
Segundo a médica, há dez anos o suicídio era a terceira causa de mortes entre jovens. Hoje, já é a segunda causa, ficando atrás apenas dos acidentes. Ano passado, a OMS divulgou que o índice de suicídios aumentou 10,4% no Brasil, comparado a estudos anteriores da mesma instituição. "Acreditamos que o número é muito maior, pois as estatísticas brasileiras não são confiáveis", garante a psiquiatra, esclarecendo que as declarações de óbito não incluem suicídios, mas "causas externas", o que tira estes acontecimentos dos levantamentos.
No Paraná, os dados disponíveis indicam queda no número total de suicídios entre 2013 e 2014, quando os registros passaram de 656 para 618 casos. Entre a população até 24 anos, porém, o número aumentou de 113 para 126 no mesmo período. Já entre pessoas com mais de 55 anos o crescimento foi de 146 para 151.
Além das doenças e da idade, viver em solidão e isolamento é outro fator de risco, principalmente para adolescentes escondidos atrás de ambientes virtuais, o que predispõe à depressão e ao uso de drogas. "É um fenômeno da atualidade, há 40 anos a população jovem não se suicidava tanto", comenta Alexandrina. O bullying também aumenta os riscos entre os mais novos. "No Japão, o índice de suicídios sobe no dia de volta às aulas, porque os adolescentes temem o bullying e não querem voltar para a escola", lembra.

Outros fatores
Outro fator de risco é o gênero. Conforme a pesquisadora, homens se matam três vezes mais que as mulheres, mas elas tentam mais, na mesma proporção de três para um. Pessoas solteiras, viúvas ou divorciadas também teriam mais risco de desenvolver pensamentos suicidas. Os bons casamentos, por sua vez, seriam um fator de proteção.
A pesquisadora lembra que a situação socioeconômica também influencia as tentativas de tirar a própria vida. "Estamos em um momento de crise e é comprovado que pessoas em situação de recém-desemprego têm mais possibilidade de suicídio, principalmente nos primeiros meses, antes da situação se acomodar. "O mesmo vale para o período logo depois do diagnóstico de doenças crônicas, como câncer, doenças cardíacas ou neurológicas." História familiar de suicídio ou doenças psiquiátricas são outros fatores importantes, assim como as tentativas prévias.
A médica observa que, quando o suicídio não foi evitado, é preciso dar assistência aos sobreviventes, o que inclui familiares, amigos e colegas de trabalho ou de escola. "É um luto mais dolorido do que os outros, pois sempre fica a dúvida de que poderia ter sido evitado, sempre há julgamento. Mas a decisão sobre a vida é da própria pessoa. O que mais queremos é quebrar o estigma e o tabu de falar, pois só assim teremos mais vida."

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