O Paraná atingiu, nesta quarta-feira (2), a marca de 10% da população imunizada com a segunda dose das vacinas contra a Covid-19 disponíveis no país. Em números absolutos, são 1.147.815 paranaenses protegidos contra a doença que, em mais de um ano de pandemia, já provocou 26,6 mil mortes no Estado.

Nova Santa Bárbara
Nova Santa Bárbara | Foto: Lis Sayuri/27-05-2014

Das 27 unidades da federação, 11 já haviam superado a taxa de 10% de vacinados. O Rio Grande do Sul, que tem a população mais envelhecida do Brasil, lidera o ranking com 13,35% de vacinados com a segunda dose, seguido por Mato Grosso do Sul (12,96%) e São Paulo (12,43%).

Na quarta-feira, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), divulgou a previsão de vacinar toda a população adulta (a partir de 18 anos) do estado de São Paulo até o dia 31 de outubro. A previsão considera a data estimada de aplicação da primeira dose. No Paraná, o índice de pessoas que receberam ao menos uma dose é de 20,5% e ainda não há uma perspectiva de data para a vacinação de toda a população adulta. Recentemente, o Estado ultrapassou a marca de mais de 50% do grupo prioritário vacinado, composto por 4.812.142 paranaenses.

A Sesa (Secretaria de Estado da Saúde) analisa que com o término da vacinação da população idosa e com a definição de novos grupos prioritários, a imunização deve acelerar no Estado. “A explicação está na divisão da população entre os grupos prioritários estabelecidos nos planos de vacinação de cada estado. Como a imunização se dá em etapas, recebe mais doses o estado que possui mais pessoas no público-alvo daquele momento”, informa a secretaria.

Nesta semana, no envio da 22ª remessa de vacinas do Ministério da Saúde, finalmente o Paraná ultrapassou o Rio Grande do Sul em quantidade absoluta de doses recebidas. “Desde o início do processo de vacinação, cada estado recebe um informe técnico do Programa Nacional de Imunização do Ministério da Saúde repassando as quantidades e os percentuais para cada grupo prioritário elencado no plano. No Paraná não é diferente: cada pauta mostra a quantidade de doses encaminhadas, qual seu laboratório de origem, para qual grupo prioritário são destinadas e qual o percentual que vamos atingir em cada grupo”, explica a diretora de Atenção e Vigilância em Saúde, Maria Goretti David Lopes.

MUNICÍPIOS

Os dados da Sesa mostram ainda uma grande disparidade na vacinação entre os municípios, que pode ser avaliada na comparação entre Diamante do Norte (Noroeste) e Diamante do Sul (Oeste). Enquanto o primeiro, que tem cerca de 5 mil habitantes, está com 42% da população vacinada com a primeira dose, o segundo, vacinou apenas 11% dos 3,5 mil habitantes.

Imagem ilustrativa da imagem PR chega a 10% de imunização com disparidade entre municípios

Já entre os que mais vacinaram com a segunda dose, Nova Santa Bárbara, no Norte Pioneiro, tem a situação mais avançada, com 23,54%. De acordo com a secretária municipal de Saúde, Rosana Ruy de Souza, mesmo com a aproximação de um quarto da população imunizada, ainda é cedo para se falar em proteção coletiva. “Tivemos uma redução de casos ativos, mas não dá pra afirmar que seja uma consequência. Os óbitos ainda preocupam. É muito cedo para comemorar”, diz.

Segundo a secretária, enquanto o ritmo da vacinação não avança, é preciso manter os cuidados com a prevenção. “Hoje nossa maior preocupação é com a aglomeração de jovens, principalmente na praça da cidade. Reforçamos o apelo para que todos se cuidem, porque a doença se torna mais grave com as variantes, vitimando inclusive jovens sem comorbidades”, adverte.

Na rabeira do ranking aparecem três municípios da Região Metropolitana de Curitiba: Fazenda Rio Grande (4,80%); Colombo (4,72%) e Tunas do Paraná (4,20%). A reportagem entrou em contato com a Sesa para questionar o motivo da disparidade entre o percentual de vacinados por municípios, mas não obteve retorno até o fechamento da edição.

Levando em consideração apenas as maiores cidades do Estado, Londrina tem a maior taxa de vacinação com duas doses, com 15,39% de cobertura, seguida por Maringá (13,71%), Cascavel (12,41%); Curitiba (11,72%); e Ponta Grossa (8,97%). No entanto, na vacinação da primeira dose, Maringá se destaca entre os primeiros lugares do Estado, com 33,26%.

Resultados começam a aparecer com 75% de cobertura, aponta experiência em Serrana

Oito semanas após o início da vacinação em massa de sua população adulta contra a Covid-19 e depois de ter alcançado a imunização de 95% da população adulta, o município de Serrana reduziu em 95% as mortes pela doença.

Serrana (SP)
Serrana (SP) | Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress

A cidade do interior paulista, na região metropolitana de Ribeirão Preto, foi alvo de estudo inédito sobre os efeitos da vacinação em massa da população. O chamado projeto S, idealizado pelo Instituto Butantan consiste em analisar o impacto e a eficácia da vacinação na redução de casos do novo coronavírus e no controle da pandemia.

O projeto conseguiu vacinar 95,7% dos 28.380 adultos da cidade, ou 27.160 pessoas com mais de 18 anos. Os moradores foram divididos em quatro grupos, e cada um deles recebeu a vacina com uma semana de diferença. Após o último grupo receber a primeira dose, a aplicação da segunda dose no primeiro grupo teve início.

Com isso, os pesquisadores conseguiram observar uma queda significativa no número de novos casos sintomáticos de Covid e de hospitalizações quando 75% da população elegível foi totalmente imunizada, isto é, quando o terceiro grupo dos quatro recebeu as duas doses da Coronavac.

"A queda de casos [sintomáticos] e mortes foi expressiva antes mesmo de termos concluído a aplicação da segunda dose no último grupo, o que nos mostra o efeito da imunidade indireta, ou seja, que uma ampla cobertura vacinal contribui para diminuir a transmissão do vírus", disse Ricardo Palacios, diretor médico de pesquisa clínica do Instituto Butantan.

Além da redução de mortes, a cidade também teve queda de 80% de casos sintomáticos e 86% de hospitalizações.

"Até aqui nós tínhamos visto a eficácia individual da vacina, a proteção que oferece ao indivíduo vacinado. Com esse estudo, podemos ver a proteção coletiva, seu benefício indireto mesmo para quem não foi imunizado", diz a médica infectologista Rosana Richtmann, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas.

Outros estudos já tinham buscado avaliar a efetividade da Coronavac na população, como foi feito em Manaus, capital do Amazonas, e no Hospital das Clínicas em São Paulo. Ambos, no entanto, apresentaram dados após a vacinação somente de profissionais de saúde, que têm maior risco de contrair o vírus.

Já o estudo em Serrana incluiu a população em geral, com pessoas de diversas etnias e idades e com condições de saúde preexistentes também diferentes. Apenas as gestantes e puérperas (até 45 dias após o parto) não foram incluídas no estudo de Serrana.

Houve uma queda acentuada no número de casos, hospitalizações e óbitos após a conclusão do projeto mesmo entre a população não vacinada, isto é, nos moradores da cidade que pelo critério de idade (menores de 18 anos, por exemplo) ou por outros fatores (como a população maior de 80 anos, que já havia recebido a vacina, ou os imunossuprimidos e que não podem se vacinar) não participaram do estudo.

Isso se dá pela chamada imunidade coletiva. Quando um grande número de pessoas está vacinada contra um patógeno e possui imunidade, as chances de o vírus encontrar um indivíduo suscetível são bem menores e ele acaba "desaparecendo" da população.

"Essa é uma evidência palpável do efeito indireto da vacinação: a diminuição da transmissibilidade do vírus está beneficiando mesmo aqueles que não completaram ainda o esquema vacinal. Isso confirma resultados que já vimos anteriormente e nos faz aproximar de qual será a quantidade de pessoas que temos que vacinar dentro da população-alvo", disse Palacios.

Em Serrana, o pico de hospitalizações por Covid em 2021 foi na 10ª semana epidemiológica (entre os dias 7 e 13 de março). À época, a aplicação da primeira dose havia começado no quarto grupo de habitantes (azul). Logo em seguida, o número de casos sintomáticos entre os vacinados e os não vacinados começou a declinar, atingindo o ponto mais baixo na semana epidemiológica de número 16 (entre 18 e 24 de abril), duas semanas depois de o grupo azul receber a segunda dose da vacina.

Já em relação às hospitalizações, houve também uma queda simultânea tanto entre os vacinados como entre os não vacinados no município a partir da 10ª semana epidemiológica, embora os não vacinados tenham oscilado, com aumento posterior. No caso da população vacinada, a incidência de hospitalizados passou de 50 a cada cem mil habitantes no pico (na primeira quinzena de março, logo após a aplicação da primeira dose na cidade) para zero quando o último grupo recebeu a segunda dose.

Esses resultados, embora ainda preliminares, indicam como a vacinação pode também efetuar um papel importante no controle da epidemia, algo que já é observado para outras doenças infecciosas, como sarampo. Um controle elevado no número de novos casos não elimina por completo casos pontuais de hospitalizações e óbitos por uma doença, mas reduz em muito a sua incidência, o que pode evitar o esgotamento dos sistemas de saúde.

Para avaliar esse efeito, os pesquisadores compararam a incidência de novos casos, hospitalizações e óbitos em Serrana com outros municípios da microrregião de Ribeirão Preto, incluindo Pontal, Cravinhos, Jardinópolis, Barrinha e Brodowski. Em Cravinhos, Jardinópolis e Barrinha, a taxa de hospitalizações e óbitos por Covid para cem mil habitantes está acima de 30; já em Serrana, ela está abaixo de 10 hospitalizações/óbitos a cada cem mil pessoas. Em Brodowski e Pontal, essa taxa está em 20 internações a cada cem mil habitantes.

De acordo com os cientistas do Butantan, o projeto não termina com a vacinação e o monitoramento deve continuar por até um ano. (Ana Botallo e Isabela Palhares/Folhapress)