POVO IGNORADO Ciganos: marginalizados e invisíveis
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sábado, 30 de junho de 2012
Marian Trigueiros <br> Reportagem Local 
Montadas à beira de uma rodovia de Arapongas (Norte do Estado), barracas coloridas pintam o terreno carente de qualquer atrativo. Alí, vivem cerca de 30 pessoas, incluindo crianças. Sem qualquer estrutura, a água para matar a sede e fazer a comida sai de uma torneira emprestada. O banho é tomado numa tenda improvisada. Banheiro não existe e o vaso sanitário é emprestado de uma fábrica vizinha, que é compartilhado entre todos os moradores.
Não há luxo, muito menos conforto. De longe, o acampamento precário poderia ser confundido com uma invasão de sem-teto. Ao chegar mais próximo, porém, alguns detalhes tímidos mostram que não. Panos coloridos, objetos e vestimentas, sobretudo das mulheres, levam à constatação de que se trata de um grupo cigano. Pulseiras, colares e dentes encapados de ouro destacam-se entre as marcas registradas deste grupo.
Nômades, os ciganos mudam de um lugar a outro de tempos em tempos em busca de pequenos trabalhos como selar cavalos, negócios e 'rolos', como troca e venda de carros, eletrônicos e ouro, no caso dos homens. ''Ficamos um tempo em cada lugar até quando conseguimos fazer negócio e ganhar algum dinheiro'', conta Vítor Soares, de 28 anos, um dos membros do grupo. Já às mulheres cabe ''ler'' a sorte de quem deseja saber do futuro e ajudar no provimento da família. Hoje, não ganham mais do que R$ 20,00 ao dia. ''Muita gente tem medo que vamos roubar. Não fazemos nada disso'', conta Néia, de 28 anos, esposa de Vítor.
O grupo está há pouco mais de dois meses instalados na região. ''Somos do mundo'', acrescenta Vítor. Apesar do espírito e da cultura desgarrada, já pensam em fixar residência em algum local. ''Está muito difícil fazer negócio. Acho que vai ser bom para as crianças irem para a escola também. Precisamos de um terreno com água, pelo menos.'' O pensamento começa a mudar, já que os pais evitam que os filhos frequentem a escola tradicional com receio de que as crianças percam a identidade cultural.
De origem Calon, falam a língua caló misturada a um português arrastado. Quase todos são analfabetos e não possuem sequer certidão de nascimento. São invisíveis aos olhos do Governo. Estimativas apontam para quase um milhão de ciganos no Brasil. Mas como nunca foi realizado levantamento oficial, nenhum número é confiável, nem mesmo de entidades ligadas ao povo cigano. ''Mas todos temos sobrenome: Soares'', diz Joel Soares, de 45 anos, com orgulho. A falta de documento, por sua vez, os restringe a atendimentos básicos, como saúde. ''Nem levamos as crianças doentes no hospital, senão o Conselho Tutelar leva embora'', detalha Néia.
A privação dos direitos pela ausência de registro civil é agravada pelo preconceito. ''Tem muita história mentirosa a nosso respeito. Nunca roubamos crianças ou fazemos algazarras como acreditam por aí'', defende Joel. Tanto que as poucas joias não são exibidas diariamente. ''Temos medo dos bandidos'', confessa um deles, retirando anéis e colares de uma bolsa para comprovar.
A imagem negativa que carregam há milênios ainda persiste e é explícita. No centro da cidade, as mulheres ciganas recebem olhares curiosos e ofensivos. ''Algumas pessoas somente dizem que não querem. Outras, nos xingam e brigam'', diz Rosa, de 45 anos, cuja pele judiada pela exposição intensa a faz aparentar muito mais idade. Filha de Rosa e casada com o filho de Néia desde fevereiro, Daiana, de 14 anos, começa a realizar o trabalho que aprendeu com a mãe. ''Falo de amor para as mulheres. Elas sofrem mais'', conta a menina vaidosa, que, assim como todos do grupo, possui uma pinta tatuada no rosto.


