Na escuridão da fronteira, o jogo de gato e rato se renova toda madrugada. De um lado, fardas de todos os tipos se espalham pela região com armas em punho, munidas também de muita intuição para identificar o inimigo. O exército da repressão composto por Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Receita Federal e Polícia Militar, em franca expansão de homens e de equipamentos, tenta sufocar em algumas das principais portas de entrada terrestre do País um oponente cada vez mais arisco, endinheirado, violento.

Do outro lado, o crime organizado igualmente se fortalece para manter vivo um dos principais mananciais que abastecem a atividade criminosa do Brasil. Para trazer drogas e contrabando do país vizinho, eles bolam rotas de passagem, aliciam com uma pequena parte dos lucros caminhoneiros, barqueiros, jovens desempregados, montam uma rede de informantes, "envenenam" carros, investem em radiocomunicação. Um adversário difícil de enfrentar.

A reportagem da FOLHA percorreu mais de mil quilômetros para entender como está o embate, cada vez mais acirrado. A primeira parada da jornada foi em Dourados (MS), sede da 4ª Brigada de Cavalaria Mecanizada, onde está sendo gerado o embrião do Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron), o maior projeto de defesa fronteiriça da história. De lá, a viagem seguiu para a conurbação binacional Ponta Porã (MS) e Pedro Juan Caballero (Departamento de Amamby), onde apenas uma avenida separa o território brasileiro do paraguaio.

"Pelo volume de trabalho e pela periculosidade das ações, a delegacia de Ponta Porã é uma escola para se trabalhar na fronteira. Nossa missão aqui é prender os grandes já que a produção não para", afirma a titular da delegacia, Paloma Brígido. As peculiaridades da fronteira seca, sem barreiras físicas – a avenida principal da conurbação, de 200 mil habitantes, tem letreiros em espanhol de um lado e em português de outro, um truque para saber onde se está pisando – é o maior desafio das forças de segurança, afirma a delegada Paloma, uma comandante que tem à sua disposição um prédio antigo e uma equipe "pra lá de motivada", embora fontes da delegacia reclamassem do efetivo pequeno diante de tanto trabalho. "Temos que ficar sempre atentos e trocar informações o tempo todo", explica a delegada.



A fiscalização neste ponto da fronteira é a menos visível no trecho percorrido pela reportagem. Entre a cidade sul-mato-grossense e Guaíra, o caminho é praticamente sem barreiras, incluindo um curto trecho da BR-463 e outro grande trecho da MS 386. Os poucos postos de fiscalização estavam inoperantes. A reportagem não se deparou com nenhuma blitz, tampouco com abordagens individuais. No Mato Grosso do Sul, a fiscalização parecia estar num dia de refresco, o que nunca ocorre na parte paranaense da fronteira, garantem os policiais entre Guaíra e Foz do Iguaçu.

Confrontos entre policiais e criminosos são uma raridade. O quadro de violência não é tão feio quanto muita gente pensa no ponto mais movimentado da parte sul-mato-grossense da fronteira. A repressão baseada mais na inteligência que na presença física vem alcançando bons resultados, ainda que os federais tenham à disposição uma estrutura claramente inferior a Foz e Guaíra.

No balanço da Polícia Federal em 2012, o último divulgado, Ponta Porã aparece nos rankings das maiores apreensões de cocaína e maconha. Naquele ano, a delegacia local apreendeu um total de 20 toneladas de maconha, o maior volume do País. Em volume de cocaína, de 907 quilos, a delegacia da PF na cidade aparece em 7º lugar do País. "Cerca de 90% do trabalho da gente é ligado a narcotráfico. Há muita pistolagem, mas também há muitos homicídios praticados por quadrilhas de traficantes. Os criminosos sabem que a investigação dos crimes é um grande problema por causa da facilidade de se cruzar a fronteira", afirmou um investigador da Polícia Civil que preferiu não se identificar.

Embora a imagem de cidade violenta, como se fosse uma típica localidade sem ordem e lei habite o imaginário de qualquer paranaense com conhecimento médio sobre a fronteira, Ponta Porã, proporcionalmente tem menos homicídios que alguns municípios banhados pelo Lago de Itaipu. De acordo com dados extraoficiais levantados pela reportagem junto a delegacia regional, foram 76 homicídios no biênio 2012/2013. O índice de 0,8 homicídio por grupo de mil moradores é bem menor que o de Guaíra, São Miguel do Iguaçu Santa Helena e Foz do Iguaçu (ver tabela na página 11).

Depois de observar como funciona uma fronteira seca e como o trabalho de inteligência é fundamental para barrar drogas e contrabando antes que os produtos cheguem aos centros consumidores, a reportagem seguiu viagem no sentido sudeste para encontrar um outro tipo de fronteira, ainda mais tensa e com outros elementos, como um lago que separa os dois países, com estradas mais movimentadas e com potencial repressivo muito mais estruturado.

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