Por uma vida como outra qualquer
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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019
Pedro Moraes <br> Reportagem Local 
Uma menina de 4 anos de idade chegou ao acolhimento assustada, com os cabelos embolados e suja, com a aparência de que não tomava banho havia dias. A presença de um homem no ambiente a deixa assustada e ela se esconde no colo da cuidadora. Seu irmãozinho, de 3 meses de vida, saiu ainda recém-nascido, direto da maternidade para a instituição, que tem a guarda dos dois. Ele pesava dois quilos e agora já está próximo de quatro. Esta é a realidade de duas das crianças que estão sob os cuidados do acolhimento. A mãe deles é viciada em crack, o pai tem comportamento violento. Os dois vivem em uma invasão e não têm condições de administrar a família. A realidade das crianças que passam por essas casas é sempre indigesta. A tentativa de recriar uma vida social é constante, mas nem sempre é fácil conseguir readequar as rotinas. "Tem o caso de um menino que tem tudo para ser um excelente jogador de futebol. O técnico vem aqui na porta, faz tudo por ele. Mas o menino não tem a menor autoconfiança, não consegue. É uma pena de ver", lamenta Lídia Loback, coordenadora técnica do Nuselon.
Cada instituição busca uma maneira de aproximar a realidade dos acolhidos a uma vida de uma família qualquer: ir ao cinema, comer em um restaurante fast-food, passear no shopping. Mas esta não é uma rotina comum para essas crianças e jovens. No Lar Anália Franco, uma rede de voluntários acompanha os moradores das casas de acolhimento para diversas atividades. Recentemente, um desses passeios foi interrompido por um terrível mal-entendido. "A pessoa levava um adolescente para comer hambúrguer em uma loja em uma das principais avenidas da cidade. Acabou que os funcionários chamaram a polícia achando que a voluntária havia sido sequestrada. Foi um constrangimento enorme", relata Cavazin. Outro momento de alegria inesperado foi a viagem dos acolhidos do Nuselon a um parque de diversões. Com a chegada de um recurso inesperado, a administração da instituição tinha dez dias para gastar R$ 63 mil. As regras impostas para a destinação da verba proibiam o pagamento de funcionários. O dinheiro só poderia ser consumido diretamente para as crianças. "Decidimos então fazer uma viagem. Foram todos ter uma chance que nunca tiveram. Para eles, foi inesquecível", lembra Télcia Oliveira. O que restou dos gastos virou calças jeans e tênis para a garotada. "Eles foram pessoalmente na loja escolher. Tiveram uma chance única na vida. Não sabiam nem escolher. Parece tão pouco, mas dá dignidade", conclui.


